A vontade é de desabafar. Mas eu já aprendi: não se faz isso em público. Ninguém desabafa em uma crônica que vai ser lida por milhares de pessoas. Mas eu preciso desabafar. Estou sem espaço para manobras.
- Poesia, vá buscar a poesia!, reclama meu bom senso.
Mais difícil do que desabafar em público, é pensar em poesia neste momento. Pareceria provocação poetizar em meio a tantas indefinições.
Além disso, azedado como estou, não enxergo poesia no congestionamento.
Sigo para uma reunião de trabalho e acontece algum problema com alguém em algum lugar e o trânsito enlouquece. Isso é São Paulo.
Moro no interior e fico feliz em constatar na prática que não me acostumo mais às loucuras da capital. Quem já foi de São Paulo e mudou para uma cidade menos ensandecida (e gostou) sabe do estou falando.
Aprendi a desaprender esse amor doentio pelos grandes aglomerados urbanos. Mesmo assim, gosto de pessoas que amam cidades assim. Meus filhos, por exemplo, os da Capital, adoram continuar enfrentando filas, congestionamentos e manias. Amo meus filhos paulistetes, apesar dos congestionamentos.
No trânsito.
O motorista do carrão ao meu lado abaixa o vidro revestido com aquela película escura e cospe no asfalto. Em seguida, levanta o vidro e volta a se encastelar na invisibilidade do carro de janelas escuras. Enxames de motociclistas passam entre os carros, zumbindo suas buzininhas irritantes e sua agressividade guerrilheira. E a moça do carro detrás examina o rosto pelo retrovisor.
- Amiguinha, preste atenção ao volante e não bata na traseira deste carro que dirijo neste anda-e-para que parece eterno.
Queria me dar ao luxo de delirar encontrando outra ocupação profissional que não a atual. Não é impossível, mas parece tão despropositado quanto pensar em poesia em meio a essa crise existencial e a este congestionamento.
Poesia
. Lembro de uma época em que resolvi ouvir poesia no CD do carro. Estava em uma fase melhor que a atual. Escolhi ouvir Augusto dos Anjos na belíssima interpretação do excelente ator Othon Bastos. Quase surtei.
Nesta fase da história em que agregar valor é sinônimo de muitas coisas e de nada ao mesmo tempo, penso no medo que já senti desses discursos circulares. Não que tenha perdido o medo dos oradores medíocres, pois ainda me irrito com os discursos fabricados e com as frases feitas dos pensadores de época. Mas perdi o medo da hipocrisia. Os hipócritas são doentes contagiosos, porém, dependem da boa vontade de muitos para as suas epidemias.
Prefiro o enfarto ao enfado, o mau cheiro ao excesso de perfume, o silêncio à fábula discursiva.
Mas eu falava da vontade de desabafar e não vejo o porque de fazer isso em público.
Maurício Cintrão
(publicado pelo jornal O Vale, caderno Viver& em 17/09/11)
17/09/2011
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