17/09/2011

É hora de desabafar

A vontade é de desabafar. Mas eu já aprendi: não se faz isso em público. Ninguém desabafa em uma crônica que vai ser lida por milhares de pessoas. Mas eu preciso desabafar. Estou sem espaço para manobras.


- Poesia, vá buscar a poesia!, reclama meu bom senso.

Mais difícil do que desabafar em público, é pensar em poesia neste momento. Pareceria provocação poetizar em meio a tantas indefinições.

Além disso, azedado como estou, não enxergo poesia no congestionamento.

Sigo para uma reunião de trabalho e acontece algum problema com alguém em algum lugar e o trânsito enlouquece. Isso é São Paulo.

Moro no interior e fico feliz em constatar na prática que não me acostumo mais às loucuras da capital. Quem já foi de São Paulo e mudou para uma cidade menos ensandecida (e gostou) sabe do estou falando.

Aprendi a desaprender esse amor doentio pelos grandes aglomerados urbanos. Mesmo assim, gosto de pessoas que amam cidades assim. Meus filhos, por exemplo, os da Capital, adoram continuar enfrentando filas, congestionamentos e manias. Amo meus filhos paulistetes, apesar dos congestionamentos.

No trânsito.

O motorista do carrão ao meu lado abaixa o vidro revestido com aquela película escura e cospe no asfalto. Em seguida, levanta o vidro e volta a se encastelar na invisibilidade do carro de janelas escuras. Enxames de motociclistas passam entre os carros, zumbindo suas buzininhas irritantes e sua agressividade guerrilheira. E a moça do carro detrás examina o rosto pelo retrovisor.

- Amiguinha, preste atenção ao volante e não bata na traseira deste carro que dirijo neste anda-e-para que parece eterno.

Queria me dar ao luxo de delirar encontrando outra ocupação profissional que não a atual. Não é impossível, mas parece tão despropositado quanto pensar em poesia em meio a essa crise existencial e a este congestionamento.

Poesia

. Lembro de uma época em que resolvi ouvir poesia no CD do carro. Estava em uma fase melhor que a atual. Escolhi ouvir Augusto dos Anjos na belíssima interpretação do excelente ator Othon Bastos. Quase surtei.

Nesta fase da história em que agregar valor é sinônimo de muitas coisas e de nada ao mesmo tempo, penso no medo que já senti desses discursos circulares. Não que tenha perdido o medo dos oradores medíocres, pois ainda me irrito com os discursos fabricados e com as frases feitas dos pensadores de época. Mas perdi o medo da hipocrisia. Os hipócritas são doentes contagiosos, porém, dependem da boa vontade de muitos para as suas epidemias.

Prefiro o enfarto ao enfado, o mau cheiro ao excesso de perfume, o silêncio à fábula discursiva.

Mas eu falava da vontade de desabafar e não vejo o porque de fazer isso em público.

Maurício Cintrão

(publicado pelo jornal O Vale, caderno Viver& em 17/09/11)

3 comentários:

Otoniel Falcão disse...

Belíssima crônica... Me fez sentir saudades de Sampa e de Ituiutaba.

TIO BETO disse...

Li sua cronica hoje. Temos no Tuco, uma obriçãoa qual ontem, não fui hoje e vou amanhã, domingo. Tb vejo como vc o transito infernal de cada dia - a eterna e provisoria corrida maluca do paulistano. Mas ja resolvi o meu problema... vendi o carro e vou de carona!! Abraços mano!! Novamente meu coração brilhou lendo sua cronica. Meu abraço amigo sempre. Logo que melhorar estou aí com vcs.

Anônimo disse...

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