O Pedro conta nos dedos os dias que faltam para o reinício das aulas. Engraçado, porque eu não gostava da escola nos tempos de criança. Até estranho essa alegria do meu filho caçula. Eu chorava e não queria ir à aula. Ele vibra e gosta dos mínimos detalhes.
Por conta das nossas dificuldades logísticas dos últimos meses, Pepeu passou a ir à aula de perua. A "Tia Gisele" passa em casa todos os dias por volta das 12h20 e lá vai meu pequenino todo orgulhoso.
Fiquei em casa um bom tempo cuidando da família e ainda hoje me espanto ao lembrar da animação do pequerrucho. São tempos diferentes e eu preciso me acostumar a eles. As aulas não seguem mais aquela liturgia do sofrimento.
Essa cultura do respeito pelo sofrimento ainda sobrevive em algumas empresas, instituições, partidos políticos, universidades e até em algumas escolas. Sei de histórias de jovens submetidos a regimes educacionais severos, verdadeiras fábricas de idiotas letrados.
Mas não é isso o que tem acontecido com o meu filho. Ele gosta de ir à aula. E não é só porque tem amiguinhos e amiguinhas para brincar. Ele gostas das "tarefinhas". Quando traz a pasta plástica vermelha das lições de casa, chega mais feliz ainda.
- Pai, hoje tem tarefinha!
Diversão.
Nas semanas em que estive fazendo as vezes de pai e mãe lá em casa, pude acompanhar de perto esses comportamentos divertidos. E experimentei um misto de espanto e tristeza, porque, no fundo, não tive isso na infância.
Na Escola Álvaro de Carvalho e no São Francisco Xavier dos meus tempos de menino eu era triste, amedrontado. Estudar era sofrer. E sofrimento chamava aula.
Olhando através da neblina de quem tenta enxergar o passado, sinto que essa sensação não era uma coisa só minha.
- Pai, eu tô com saudade da Tia Nathália, disse o Pedro, outro dia, referindo-se à sua professora.
E eu fiquei emocionado. Tenho saudades da Dona Carmen do meu pré-primário, muito menos porque as aulas eram legais, mais porque ela tinha o olhar solidário de quem entendia de tristeza. Isso, acho que ela era triste como eu.
Ah, sei lá! Talvez eu esteja carregando nas cores, aqui, há dezenas de anos de distância (nossa, isso faz quase 50 anos!). Mas não custa exercitar a memória e o coração nesse caminho de volta, puxado pelo Pedro, esse pequeno e feliz estudante.
As pessoas às vezes me perguntam porque eu escolhi ter tantos filhos. Eu acho que um dos motivos é esse: eles me ajudam a lembrar. E é nesse lembrar que eu reconstruo a mim mesmo.
(publicada pelo jornal O Vale no dia 27.08.2011)
28/08/2011
Assinar:
Postar comentários (Atom)

2 comentários:
Belíssimo texto! Tocou-me profundamente - eu, menino, que gostava imensamente da escola, mas sofria com as aulas de matemática, sempre inacessíveis ao meu pobre entendimento logarítmico e matricial, apesar de gostar de equações de primeiro e segundo grau...
Eu, que também voltei aos bancos escolares, desta vez um mestrado profissional, preciso confessar que o mesmo menino está de volta, ansioso pelas aulas, para fazer as "tarefinhas", vibrando por estar aprendendo coisas novas.
De fato, como já disse um poeta, a vida é um eterno recomeço...
Grande abraço!
Grande esse retorno ao passado. Passado vivido por nós , cada qual em uma epoca, mas ambos com expectativas de um futuro lindo e severo com suas anuancias. Somos felizes a nossa maneira, dentro do possivel e previsivel. Saudades, mano! É bom ler suas palavras num final de dia frio como o de hoje!!!
Abraços tricolinos
Postar um comentário