O disco estava ali, caído no chão do estacionamento do hospital. Pude vê-lo porque sua superfície prateada refletiu a luz dos faróis do meu carro. Seria um CD ou um DVD? Momentos antes, um homem se despedia de uma criança naquele local. A mulher que estava ao volante do carro falava ao pequeno: dá tchau. Será que o disco caiu do carro?
Tive a tentação de parar e pegar o disco. Mas achei que seria invadir um momento íntimo de despedida da família. Quem seria o homem? Um médico, um paciente? O disco seria dele, do menino, da mulher, de um vizinho... Poderia ser um disco com informações digitalizadas de exames médicos.
Um pedaço da história daqueles três talvez pudesse ser conhecida por meio do pequeno disco prateado. Que músicas estariam ali a permitir lembranças, sonhos, outros mundos... Um filme, quem sabe, que marcou um passeio, uma noite fria ou uma tarde divertida com pipoca e refrigerante. Fotos, o disco poderia ter fotos digitalizadas e guardadas. Ou seria uma tomografia?
De fato, mesmo, só sei que era um disco redondo como as minhas dívidas circulares, que sempre voltam, feito tempestades. Um disco a me fazer distrair a preocupação com a Viviane, minha mulher, deitada no quarto 13 do ViValle, hospital que a recebeu e aconchegou por longas duas semanas. Hoje, à distância, com ela aqui em casa, sei que se recupera. Mas naquela noite, eu tinha muitos temores.
Medos reais como o disco caído no chão do estacionamento. Delirantes como as suposições sobre o que poderia conter aquele CD os DVD. Discos, aliás, são problemas da Viviane. Discos desgastados da coluna lombar. Enigmáticos L5 e S1, que tiram o humor e a alegria da minha companheira-menina, e a derrubam na cama sob fortes medicações.
Penso nos vários CDs e DVDs que estão em casa, com músicas, filmes, fotos e tantos arquivos. Discos distribuídos em latas, caixas, pacotes e gavetas. Todos prateados, porque a memória dos tempos de hoje tem fixação no prata. Apesar do pendrives, os CDs ainda guardam as lembranças da maioria.
O que será que aquela família perdeu no disco prateado que eu poderia ter pego e entregue na recepção, mas não o fiz porque não queria invadir a privacidade daquelas pessoas? Na manhã seguinte, o disco não estava mais lá e nenhum vestígio dele. Alguém o pegou. Será que o homem voltou para resgatá-lo ou alguma boa alma foi mais solidária do que eu?
Vai ver, algum abelhudo achou o CD ou DVD e foi xeretar a vida alheia. Eu poderia ter protegido as memórias, os sons, as imagens ou os exames daquela família. Bastava ter salvo o disco prateado que brilhou à luz dos faróis do meu carro naquela noite. Mas estava muito frágil para proteger quem quer que fosse. Eu tinha que me concentrar na recuperação da minha mulher.
Voltei para casa e dormi de mãos dadas com o Pedro, meu filho caçula
Maurício Cintrão
(publicado em 30/07/11 pelo jornal O Vale)
30/07/2011
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4 comentários:
Sei que fez o certo. Quem o catou foi o violentador de uma situação que não te diz respeito. O velho França bem que ensinou a nós, que o que não nos respeito, não é nosso! E vc o fez mais uma vez deixando as lagrimas a escorrer por aqui. Abraços mano!!
Mais uma vez passou e como sempre, com toda a sua sensibilidade, você registrou e superou. Parabéns! Adorei o texto! Amo você! Beijos, Su
Recomendado e muito bem pelo amigo Tio Beto, viajei com o texto. De uma sensibilidade ímpar.
Comoveu a mim tb.
Parabéns. Abraço afetuoso dessa sua nova seguidora.
Parabens tio mau!!! Arrasou no texto, como sempre! Beijao e melhoras pra Vivi!! To rezando p ela ficar 100$ logo!!! Bjao p todos
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