“Chove chuva,
Chove sem parar.
Chove, chove, chove chuva
Chove sem parar”
Jorge Ben(1)
![]() |
| Capa do Disco Samba Esquema Novo |
No tempo em que Jorge Ben fazia muito sucesso e ainda não tinha o Jor acoplado ao nome, fui levado a aprender a tocar timba, o “atabaque da bossa nova”, pelo primo mais velho, o Cláudio, exímio violonista e mandão que só ele. A timba é aquele instrumento de percussão cônico que, nos tempos dos Festivais de Música, era empunhado pelo cantor Magro, do MPB4. Mais tarde, ficava sob as pernas de Joãozinho Parahyba, do Trio Mocotó, no saudoso Jogral.
O convite-intimação do primo tinha um fundo operacional, devo reconhecer. Feito família que coleciona goleadores, meus primos violonistas queriam alguém que ficasse no gol, ou seja, na percussão, posição indesejada pela maioria. Sempre fui péssimo em futebol, então, foi fácil aceitar a penalidade.
“Chove chuva” ainda era cantada nos encontros de samba de apartamento e entusiasmava muitos jovens. Foi inspirado pelos primórdios do sambalanço, portanto, que aprendi a tocar timba durante as férias de verão. Aliás, aprendi sem a timba, porque não tínhamos o instrumento em casa (lembre-se, não havia percussionista na família).
“Na falta de tu, vai tu mesmo”, dizia a vovó. Para “timbar”, eu improvisava uma estranha combinação de assento de cadeira de cozinha como “pele” e uma escova de cabelo como a vassourinha de bateria. O primo, alguns anos mais velho, explicou com o didatismo de uma manual de trator: “você faz assim com essa mão e assado com aquela”. E me deixou a pentear e espalmar o assento da cadeira enquanto todo mundo ia jogar bola nos finais de tarde. Assim virei o goleiro, quero dizer, percussionista da família.
![]() |
| Eu, de azul, tocando pandeiro para Eugênia |
Hoje, à distância, percebo que o mais importante daquela experiência foi descobrir a magia da música, maior do que o eventual sucesso ou dos romances de fim de noite. A timba-atabaque permitiu que eu conhecesse, mesmo que de longe, o sentido da enigmática irmandade dos percussionistas, seres diferenciados que se comunicam com o Cosmo pela vibração de partículas de ar.
Vivi a esperança de me transformar em percussionista por uns bons dois ou três anos, mas encerrei a pretendida carreira que, aliás, não era lá muito promissora. Nunca mais voltei a tocar timba, salvo raríssimas vezes, aqui ou ali. Fizeram os descaminhos da vida (ou das escolhas) que eu me afastasse do mundo percussivo com o passar dos anos e encontrasse outras formas de conquistar namoradas e conversar com o Universo. As sensações agradáveis da prática musical ficaram guardadas na memória, naquele recanto gosotoso que conserva imagens, sons e sabores do indizível.
“Velhinho”, hoje posso me dar ao luxo de fazer essa volta enorme para, a partir daí, falar sobre as aulas do módulo “Música na perspectiva da cultura popular: danças e folguedos I”, do curso de Pós-graduação em Cultura Popular Brasileira da Univap. Ministrado pela Professora Eugênia Nóbrega, o curso estabeleceu novas pontes com aqueles tempos de goleiro-timba, em que o som da pele animal esticada sobre madeira ensinou, de alguma maneira, como evocar a sabedoria ancestral da vibração do mundo.
Nei Lopes, em sua emblemática Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana (2) , define o verbete tambor como nome genérico de todo instrumento de percussão membranófono. A música africana, diz ele, na origem e na Diáspora, compreende enorme variedade de tambores.
“...quando usados ritualisticamente, são sacralizados, já que o som que emitem é portador de energia vital, de axé (3) , servindo , por isso, como veículo de contato entre o mundo dos vivos e o das entidades sobrenaturais”.
![]() |
| Turma do pós de Cultura Popular Brasileira |
Um colega do curso, o Flávio Itajubá, fundador do Maracatu Baque do Vale, de Taubaté (SP), e muito bem iniciado nas artes de fazer vibrar as partículas do ar para “falar” ao sobrenatural, lembrou durante a aula: depois de tocar um instrumento de percussão, sua vida nunca mais será a mesma. “A vibração é tão forte que até dispara os alarmes dos carros”, dizia ele. E eu brinquei: “dispara os alarmes do coração”.
Pieguismo à parte, acho que aí está a base das minhas reflexões sobre o curso. Por isso escolhi a expressão como título deste texto de reflexão. Os ensinamentos suaves e firmes da Professora Eugênia dispararam meus alarmes afetivos para a retomada dessa comunicação com o Cosmo que eu já conhecia de esbarrão, mas deixava guardada no sótão da memória.
Para compreender música e os folguedos populares é preciso aceitar essa magia que estabelece contato com as energias que desconhecemos, mas que mexem com todos nós. Porque cultura é, como bem definiu Weber, uma teia de significados, pública, visível, audível, vibrável, que serve de referência, identificação e ponte de entendimento entre as pessoas, desde que dividam o mesmo repertório.
A base do cantar e tocar no universo da cultura popular brasileira está na tradição e na ancestralidade de sobreviventes da diáspora africana e do desterro indígena. O que para muitos de nós é mero baticumbum dos espetáculos coreográficos, para outros é releitura de manifestações religiosas transformadas pela necessidade, pelo passar dos tempos ou mesmo pela hibridação provocada por diálogos entre manifestações culturais distintas. Assim, o místico não está despegado da realidade quando se trata de danças e músicas de inspiração popular.
Na abertura de seu livro “O que é folclore”, Carlos Rodrigues Brandão, citou uma fala de um dançador de congo de Machado, no interior de Minas Gerais, muito apropriada a esta altura das reflexões.
“Isso o povo daqui faz por uma devoção. É uma devoção que a gente tem com o santo, e por isso canta e dança conforme fez agora. Agora, tem gente que aparece que chama isso de folclore” (4) .
Essa talvez tenha sido a maior de todas as razões da ambivalência no trabalho de Mário de Andrade, meio intelectual racionalista, meio bruxo “pesquisador-farejador” (como disse certa vez o Maestro Villa-Lobos). Andrade buscou dividir entre o racional e o incomensurável suas andanças de turista aprendiz por esse Brasil tão rico e fascinante. “Êh coisas de minha terra, passados e formas de agora/Êh ritmos de síncopa e cheiros lentos de sertão/Varando contracorrente o mato impenetrável do meu ser...” (5).
Como bem definiu CAVALCANTI, 2004, “De seus primórdios até nossos dias, os estudos de folclore trazem embutida a notável capacidade de provocar entusiasmo, e mesmo encantamento” (6).
Encantamento trazido para a sala de aula pela pequenina professora Eugênia, que adquire dimensões monumentais quando se coloca entre uma alfaia e o universo, ensinando os rudimentos da percussão compassada que permite a conversa com o invisível.
Devo confessar que, bem diferente de meu primo-mandão daqueles tempos de menino, a professora tirou de mim e de todos nós o máximo de musicalidade possível com delicadeza, paciência e um gestual próprio, coreográfico, bailarino.
E tocamos alfaias, caixas, pandeiros, ganzás, sete flechas e tamborins, com um emaranhado de contatos principiantes com algumas das dimensões do eterno, reafirmando que o estudo da musicalidade pela óptica do “popular” passa necessariamente pelo mágico.
Prefiro me esquivar da discussão inacabável sobre o que é ou não “popular” e abordar as questões da música pela perspectiva das manifestações mantidas pelas camadas mais pobres da população.
E não se entenda aí qualquer conotação pejorativa. Aquilo a que se acostumou chamar de folclore ou cultura popular é manifestação que sobrevive por ser um patrimônio de resistência de afro descendentes e índio descendentes que ainda conversam com o sagrado.
É nos rincões deste País de dimensões continentais que sobrevivem os xamãs que falam ao Universo sem precisar de letras, pautas ou definições rebuscadas. Falam porque assim sempre foi desde tempos imemoriais, quando os moradores originais desta terra dançavam, cantavam e homenageavam seus ancestrais, dos posteriores terreiros de batuques, travestidos em festas aculturadas e transformados em festejos católicos de porta de Igreja. Falam porque conhecem como poucos a arte do percutir o ar para abrir corações e espíritos à grande conversa com o transcendente. Falam porque até na sua diversão trazem a humildade de quem sabe da pequenez humana e finita.
E não se espere, com isso, que essas manifestações sejam peças emboloradas de museu. São fatos vivos da cultura, emocionantes, emocionados. ´´É sempre igual”, dizia um dançador de jongo de São Luís do Paraitinga ao Prof. Carlos Brandão, “mas é sempre diferente”.
Essa foi mais uma lição trazida pelo módulo “Música na perspectiva da cultura popular: danças e folguedos I”. E buscamos no mesmo Prof. Brandão uma fala que consideramos importante.
“Aquilo que se reproduz entre pescadores, índios e camponeses como saber, crença ou arte reproduz-se enquanto é vivo, dinâmico e significativo para a vida e a circulação de trocas de bens, de serviços, de ritos e símbolos entre pessoas e grupos sociais. Enquanto resiste a desaparecer e, preservando uma mesma estrutura básica, a todo momento se modifica. O que significa que a todo momento se recria” (7)
A professora Eugênia mostrou que é possível participar, mesmo que à distância, dessa dinâmica da vida, em ligação com o sagrado, respeitando as regras que limitam o acesso dos iniciantes. Basta abrir o coração com serenidade. E ela mostrou isso de maneira surpreendente. Se não estivéssemos todos encantados, o reproduzir do toque do tamborim seria cômico, mas não foi: “teco, teco, teco, teteco, teco, teco”.
Mas não se engane. Percutir com coerência permite fazer sons razoavelmente inteligíveis. Entretanto, só isso não basta. O tocar de verdade independe da pauta matemática dos compassos. É preciso aprender a voar.
A experiência vivida em aula foi muito maior do que apenas reproduzir gestos, passos e sons. Tivemos a oportunidade de abrir a janela da alma para o entendimento da música como ferramenta e não apenas como produto. Um bom começo para compreender as dimensões da sabedoria que fogem aos livros.
Descoisifiquemos o mágico! Sejamos livres! Que Macunaíma perca o muiraquitã, cuja sorte é apenas reflexo da beleza da imensidão. Sejamos belos pela beleza do que se faz, não do que se tem ou expropria. E que os corações disparem seus alarmes na busca da sorte das construções cotidianas.
“Oi Maria vem ver
Oi Maria vem cá
Vem dançar Mazurca (coco)
Pro povo se alegrar”(8)
(*) texto reflexão produzido para a aula de “Música na perspectiva da cultura popular: danças e folguedos I”, do curso de Pós-graduação em Cultura Popular Brasileira da Univap, Ministrado pela Professora Eugênia Nóbrega
[1] Chove Chuva, música de Jorge Bem Jor lançada no disco Jorge Bem Samba Esquema Novo, Universal Music 1963
[2] LOPES, Nei, Enciclopédia da Diáspora Africana, Selo Negro Edições, São Paulo, 2004, pp 639.
[3] “Axé, termo de origem ioruba que, em sua acepção filosófica, significa a força que permite a realização da vida”, LOPES 2004.
[4] BRANDÃO, Carlos Rodrigues, O que é folclore, São Paulo, Editora Brasiliense, 1984.
[5] “Improviso do mal da América” (fevereiro de 1929), Andrade (1993, p. 265). APUD CAVALCANTI, Maria Laura Viveiros de Castro, Cultura Popular e Sensibilidade Romântica: as danças dramáticas de Mário de Andrade, REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 19 Nº. 54, 2004.
[6] Op cit
[7] BRANDÃO, 1984
[8] Coco de Valdir Manoel da Silva




1 comentários:
OI MAURICIO!
BELA AULA DE VIVENCIA. SEI DO ENTUSIASMO PELA PERCURSÃO E AGORA PELO FOLCLORE. EU FICO DE MASSAGISTA ESQUERDO, COM MEU "ISCALHO! QUE NÃP FAZ BARULHO,BEBE-SE E NÃO SAI DO RITMO E FAZ UM SUCESSO TREMENDO. CONTINUA ESCREVENDO, MANO. SUA ESCRITA NOS FAZ SONHAR COM O INUFITADO E COM O REAL.
ABRAÇOS
Postar um comentário