05/12/2010

Dia beliche

Preciso de um dia beliche. Sabe? Aquelas camas montadas uma sobre a outra para aproveitar melhor o espaço. Já falei isso outras vezes, mas nunca foi tão verdadeiro. Preciso de um dia oficial, de 24 horas, na cama de baixo. E outro, extra-oficial, na cama de cima, com 48 horas.


Eu sempre achei a cama de cima melhor, mas como fui sonâmbulo na infância e na adolescência, fiquei proibido de dormir na cama de cima. Uma vez, nas férias, até tentei. Mas caí da cama no meio da noite, para susto dos outros três que dividiam o quarto comigo, em dois beliches.

O dia extra-oficial é o mais divertido, por isso teria que oferecer mais horas. Tempo para ler, para estudar, para escrever, desenhar, pintar, vagabundear (lembrem-se, o ócio é criativo!) e amar. Amar muito, oficialmente, é claro (mas na cama de cima). Quer dizer...

Está aí uma provável incompatibilidade. Peso 130 quilos. A patroa não é leve (falei bonito). Os dois juntos na cama de cima representam um risco potencial para que estiver na cama debaixo. Como na cama inferior estaria o dia oficial, em caso de acidente eu seria acusado de premeditação.

Matar um dia oficial por um extra-oficial de 48 horas não é lá um mau negócio. Mas isso não está em questão no momento. Eu mal tenho tempo no dia oficial para fazer tudo o que preciso. Aliás, estou aqui conjeturado e o relógio segue seu curso circular, implacável. Melhor parar de perder tempo.

É que eu estou em vias de fazer uma besteira em nome da falta de tempo e resolvi dar uma paradinha para ver se consigo acertar alguns ponteiros. Falta disposição, cabeça (e tempo, é evidente) para compatibilizar a vida em família, o trabalho e o estudo.

É comum cortar dentista, médico e estudo na hora do aperto em países subdesenvolvidos (o eufemismo é “em desenvolvimento”). Agi automaticamente: “melhor parar de estudar” (isso é a minha cabeça da cama debaixo pensando).

Mas como desfruto de uma certa mordomia em uma cama de cima virtual, histórica e eventualmente disponível (não pensem que sou louco, essa é uma das vantagens de quem é multimídia) parei de pensar no axioma contas-menos-tempo-mais-afazeres-mais-cansaço e fui ler alguns textos teóricos.

Desculpem, não é arrogância. Estou na fase de caldeira intelectual (politicamente incorreto, porque faço uma fumaça daquelas...). Estudo, pois preciso de muitos neurônios para avançar milímetros em meus recordes olímpicos. Não avancei nenhum milímetro, é bom destacar. Mas continuo tentando.

Bom, a questão é que continuo em dúvida. Paro ou não paro de estudar?

Eu até já havia decidido parar. E, metaforicamente, estava ajoelhado diante de meu testamento, pronto para o seppuku (harakiri), fora de mim, já naquela esfera superior de quem está partindo, quando tocou o meu telefone e era a minha orientadora, danada da vida. “você não pode parar; isso é um absurdo; e patati e patatá...”

Para ela é fácil dizer. Afinal, consegue compatibilizar o trabalho de professora em escola pública, com a coordenação do curso de pós-graduação (quatro turmas), atuar como orientadora de alguns loucos como eu e estudar para doutorado (é doutoranda em fase de produção da tese). Além disso, tem tempo para dançar, ir a shows, correr, chacoalhar, nadar e, coitada, torcer para o Corinthians.

Não tenho dúvida nenhuma que ela já encontrou a fórmula para o beliche das tarefas diárias. Suspeito, até, que tenha um triliche (quem sabe quadri). E também sei que ela não desiste fácil. Por isso, vou ficar por aqui a matutar como fazer para:

a) fugir dela
b) fugir de mim mesmo
c) alinhar as agendas e seguir tocando o barco.

Na próxima crônica informo o que aconteceu.

8 comentários:

Stefânia SJC disse...

Não sei se tenho beliche, tri o quadri kkkkk Sei que amo muito tudo isso.

Vida de estudante:Domingos são dias sagrados para família e Corinthians. Sala de espera de médicos, janelas de aulas, dentro do ônibus e no banheiro, quase sempre estou acompanhada da leitura que preciso dar conta. Do lado da cama tem sempre um texto relax, daqueles... ah, vou contar: Turma da Mônica, adoro Cebolinha, adolo! Acho que o grande segredo de eu dar conta da minha pesquisa é: que em meio às aulas (qah que saudade de quando eu tinha aula e professor lá dando o norte....) então, eu tinha (tenho) um caderno, que segundo meu amigo Japonês é um caderno mágico.... lá eu anotava o que eu tinha que ler para a disciplina semanalmente, aí durante a semana eu fazia o fichamento dos textos (que dava para eu ler) e quando chegava a aula eu escrevia de uma cor de caneta o que a professora falava, de outra cor o que os colegas falavam e a lápis o que vinha na hora sobre minha pesquisa (em constante metamorfose). Sempre procurava estabelecer uma relação daquilo tudo com a pesquisa.... Quando chegava a hora de entregar trabalhos finais das disciplinas (que não eram pauleiras quinzenais como no curso eu coordeno) eu fazia um balanço daquilo tudo.... muitas vezes recorria a outras sugestões de leituras, filmes e em alguns casos ousava na intertextualidade de certas músicas que eu gosto.... Desse modo passei pela fase das disciplinas na PUC, tanto no mestrado como no doutorado. Também gravava as aulas e as salvava em CD´s que eu guardo no primeiro envelope plástico que abre cada um dos meus cadernos.... Vez enquando recorro a esses arquivos de áudio e mato a saudade.... No caminhar solitário da pesquisa, quando a gente tem de escrever sem companhia dos colegas, sem a vivência nos corredores mágicos de um local chamado universidade (que a gente reclama , mas gosta e muito); eu resolvi ter cadernos para coisas diversas, tem um que levo em todo o lugar e ali anoto muitas e muitas coisas, tem outro onde registro só leituras específicas do tema e tem outro onde colo as coisas, adoro colar matérias, links, poesias, crônicas, tudo isso me ajuda sempre... para me dedicar à produção coloco sempre a pilha de cadernos na minha frente e vou me lembrando de várias coisas e aí vai que vai... Desse jeito eu estudo quase em todos os lugares, sempre consigo observar o comportamento de um torcedor, uma piada, a capa de um jornal, adesivos em carro, eu vou fazendo da vida um jogo e tocando a bola sempre....

Stefânia SJC disse...

Vida de esposa: essa parte requer muito cuidado e sobretudo cumplicidade, aquele amor de novela já era. É uma relação construída à base de amizade, respeito e muita compreensão. Às vezes tento fazer discussões de textos com alguém que não é da área, nem sempre há correspondência,rs. Para conseguir o espaço que preciso sem me isolar do mundo e não dar migalha pra quem tá do lado, precisei de muita ginga... Domingo e quarta é dia de ir à feira e comprar as verduras, legumes e frutas e dei´xar tudo lavado, cortado, picado, empacotado.... aí nos outros dias a fórmula é dia sim dia não arroz e feijão e "alguma coisa" prática, do freezer pro microondas e aí potinhos de salada dão a cor pro prato... molhos de salada dão um toque refinado, como se não tivesse tudo sido "montado" em linha de produção fordista, digamos um toque artesanal (mesmo que usando molho industrializado, batata palha e mini-torradinhas da bauduco). Uma vez por semana, por acaso hoje, um prato elaborado (nem tanto porque num sei fazer)para receber amigos em casa (ou na maioria das vezes curtir o marido, a casa, o cachorro, deixando a louça pra lá e no domingo fazendo uma limpezinha em dupla)... NO meu caso é fácil, eu uso o período que o marido tá no trabalho para estudar e quando ele chega, nada de estudos, no máximo checar e-mails, twittar, e ficar no youtube assistindo fragmentos de shows e por que não fuçando músicas da infância, um dia desses achei um álbum chamado Verde que te quero ver, de início fiz xipxip, estalei o dedo e lembrei do Parmera e depois ri muito e cantei as musiquinhas que eu cantava na infância, tocada numa vitrola vermelha portátil da Philips kkkkk A lei é: 1 vez por semana um jantar ou almoço elaborado, 1 vez por mês um cinema ou sessão pipoca com o marido; e saber pequenas grandes coisas que agradam quem está do lado, às vezes passar um café, ou descer com o lixo, ou não fazer compras desnecessárias kkkk É assim... Chamar o marido para assitir jogo (mesmo quando ele não gosta) pode ser uma boa pedida, aí ir na capoeira com ele não se torna um sacrifício, é uma troca... Aprendi que na vida acadêmica as caras metade por tabela conquistam os títulos e colhem os louros com a gente e por isso a parte mais gostosa do texto são os agradecimentos, ali as pessoas que mais amamos transbordam por todas as páginas do trabalho e mostram o quão são importantes.... sem elas nem uma linha é produzida e também nos momentos de stress são elas que nos roubam o dom de escrever kkk Pelo menos uma viagem mesmo que pra perto quando tudo parece um caos, resolve e muito!Um cachorro resolve em partes a ausência de um membro da família que ainda não veio, mas o relógio biológico e a necessidade de concretizar projetos entre pessoas que dididem teto fala alto e por isso a Dona Cegonha está escalada para 2011 e deve jogar como titular kkk

Stefânia SJC disse...

Vida de professora: amo muito dar aula! Aprendi que se não der desafio diário não tenho público e se não me sentir desafiada a desafiar com novidades, minha aula se torna um lixo! É assim com os pequenos, é assim no Ensino Médio e com os marmanjos da Pós, ai de mim se eu não bater e também se eu não assoprar na hora em que for preciso... Minhas aulas giram em torno de experiências minha de pesquisa e de vida e as experiências dos meus alunos em suas vidas tornam-se trabalhos de pesquisa histórica, rs. Em meio à Copa do Mundo esse ano, sem clubismo e sem verdeamarelismo, corri na contra-mão com a molecada falando sobre futebol amador. Eles me impressionaram!!!! Retribui com aplausos e também convidando ex craques, boleiros e a imprensa, os nomes e carinhas deles em pequena nota do Jornal local e uma matéria em portal eletrônico da emissora de Tv local tem um efeito incrível... Ah se os jornalistas descobrissem o quão bem podem fazer a pais e alunos mostrando as experiências boas das escolas e não só o caos!!! Aos sábados vivo uma missão que me foi confiada por matriarcas de responsa há cerca de dois anos! Meu, é f... todos nós lá sempre temos a semana cheia, lotada e vamos atrás de mais sarna e como coça! Mas na verdade é uma coceira gostosa, mas às vezes causa ardência e até dói, é tênue a linha entre a sensação boa de estudar e o peso do estudo, mas como diz o Chico a gente vai levando, a gente vai levando...

Stefânia SJC disse...

Vida de filha/irmã/neta: Ah isso é bom demais! Eu ainda mamo! Todos os domingos vou mamar na casa dos pais, lá assisto o jogo do meu time ou do arquirival, torcer, secar e comer... ficar largada no sofá, como eu disse lá em cima, domingo é dia de família. Com problemas ou sem problemas, familía ê, família á, família kkk. Depois do terceiro tempo, dar uma de cachorro magro, comer e sair vazado, entrar no carro e dizer boa semana e que Deus os abençoe é um remédio e tanto!!! Domingo passado por exemplo, no carro, pai, mãe, marido, irmão e cachorro: rumo: Minas Gerais – Santa Rita do Sapucaí, bate e volta: parada na ida Piranguinho pra comer pé de moleque, mercadão de Sta Rita pra comer pastel e tomar tubaína, almoço com vovó de 86 anos, de quem eu vi trabalhos artesanais e li as bulas dos remédios e investiguei sobre médicos,rs À tarde tomar café mesmo com o estomago cheio e não fazer desfeita, ligar a TV pra secar o Flu antes de pegar a estrada de volta e fazer fotos na praça central da cidade após sorvete com primos e tias... De quebra trazer um queijo pra marcar presença e voltar com a sensação de dever cumprido e de paz no core, meu ela tem 86 aninhos e agora ta fazendo tapete de retalho, é um trator de um metro e meio!!!! Benza a Deus, levar o pai pra ver a mãe acompanhada da mãe e do irmão e do marido e do cão é bão demais!

Stefânia SJC disse...

Eu não sei se meu dia tem 24 horas... de verdade eu dous aula, coordeno, sou casada, tenho um au au que reivindica passeios em dias em que não chove, vou à academia pelo menos 3 x por semana (antes eu corria diariamente e f... meu tendão de aquiles), agora ao invés de correr vou tomar choque no fisioterapeuta e pago estacionamento (além do convênio! aff).

Hoje quando liguei pra minha orientadora de manhã, achei que estava tudo Ok para meu exame de qualificação de segunda. Ela me pediu um memorialo dos últimos 3 anos (não serve o lattes, perguntei com cara de pau); diante da resposta negativa tentei começar a fazer isso na Univap, não deu... todos pedem um minutinho e eu não nego,rs. Resolvi que o jeito era usar plano B, passei direto no supermercado e em seguida busquei meu mano... liguei o video game e coloquei ele e o marido e o cão (nesse momento estão jogando uma coisa de luta com uma voz feminina lá que grita feito uma gralha). Abri o e-mail antes de começar o tal memorial, deixei o feijão descongelando pra fazer chili e botei roupa na máquina pra bater... Resolvi escrever esse texto pra dividir com meu amigo e orientando que não tem fórmula, a fórmula é ser feliz com tudo junto misturado e temos de sobrepor as coisas boas a todo e qualquer sentimento de frustração (puts financeira é a mais difícil,rs).

Stefânia SJC disse...

Vou tentar redigir rápido o tal memorial, usando o lattes e o google para lembrar de coisas que vi, li e ouvi nos útimos semestres... E aí um banho (só tomo banho ao acordar e pra dormir, no meio do dia ele é meu inimgo mortal, eu babo em seguida, às vezes sentada, em pé e até no trânsito). Ah sim, depois do banho creio que a barriga de um dos dois jogadores de games tenha falado mais alto e a carne esteja refogada e aí será meu tempero e minha finalização, parceria pura! Vamos aproveitar o resto de noite (virando pra domingo) utilizando promoção da net que abriu todos os canais pra me fazer gastar mais....vamos assistir uns filminhos, falar de coisas engraçadas e dormir, por que amanhã é domingo e domingo, ah domingo é o dia mais legal, eu já contei que é dia de família (com feira, missa, futebol, comilança e benção no final pra semana começar bem). É cíclico, quem disse que rotina é algo ruim????

Me despeço esperançosa em não perder meu aluno artista jornalista e também esperançosa para que a rodada termine com zebra pro lado do Flu. Mas, pensando bem, vi uma matéria sobre a distribuição de sardinha no Complexo do Alemão e o moço dizia que ia colocar no congelador pra fazer domingo em comemoração ao tri do tricolor carioca... puts tem 26 anos que os caras não ganham... 26 anos atrás o Timão vivia a democracia corinthiana e eu reconhecia meus craques pelas cabeleiras (o doutor, o biro biro, o casão) agora reconheço pela pança e pela calvice (Ronaldo, Júlio cesar, Alessandro, Roberto Carlos, rs). É um jeito de se consolar pelo vice-campeonato se basear no tempo de espera dos outros? Hipocrisia, né!? Mas o vice-campeão não é aquele que deu o melhor de si e que de repente escorregou em momentos estratégicos? Ah, não sei, eu sei que seja em pontos corridos ou no mata-mata cada qual tem que por o time pra jogar e deixar a bola rolar.

WO não Cintrão! Volta volta volta, ou como canta a fiel parodiando o Roberto Carlos (cantor não o lateral esquerdo): NÃO PÁRA, NÃO PÁRA, NÃO PÁRA, NÃO PÁRA, NÃO PÁRA, NÃO PARA VAI PRA CIMA TIMÃO..... NÃO PÁRA, NÃO PÁRA, NÃO PÁRA, NÃO PÁRA, NÃO PÁRA, NÃO PÁRA, VAI PRA CIMA CINTRÃO


São desafinados, mas quem canta na arquibancada sabe o quanto vale o mantra:
http://www.youtube.com/watch?v=jesYEU8QE_U

Tati disse...

Querido Cintrão,
Chorei lendo seu texto e do Zú =/
E senti necessidade de dividir com você um pouquinho dos meus dramas e medos, porque você não está sozinho meu amigo!!!
Também passei por um ano difícil, chorei muito, tive muitos dias de cama, perdi peso e pessoas.
O ano está acabando e sinto que me deixei em stand by esse tempo todo, o que me traz muita mágoa.
O final pauleira de 2009 com a correria da faculdade, monografia,pró-memória, família, amigos, falta de grana. Depois a mudança de emprego, linha de frente em escolas de periferia, choques de realidade que incluiram até ameças de morte, crianças se drogando...
Incertezas com a profissão, desânimo, medos...
Tudo isso me fez perder muitas coisas: fios de cabelo, auto-estima, positividade, vida social, desempenho nos estudos,amigos e até o namorado...rs
Mas graça a Deus (porque hoje mais do que nunca acredito quem tem ''alguém'' nos observando), tudo isso é passageiro!
Em meio a esse ano dificil descobri que tenho amigos que me atendem as 3 da manhã pra chorar comigo e que a família é tudo na minha vida, pois com eles dá-se jeito pra tudo.
Dinheiro é papel, agente sempre vai ter menos do que precisa, mas sempre daremos um jeito.
Problemas muitas vezes agente potencializa, temos que encarar por outros lados, pensar positivo, contar com as pessoas que nos amam e tocar a vida.
Tempo?
Não tenho marido, filho, nem um trabalho definido, e sempre me falta tempo.
Planejo e organizo meus dias, e sempre faço tudo diferente. Não sou tão organizada como a minha querida orientadora, mas me viro tbm, fico sem dormir, fico sem sair e no final dá tudo certo.
Por isso meu amigo, pensa, repensa, se ajeita, descansa...
Mas NÃO DESISTE!
Estamos com você nessa. Vai que dá! rs

Violeiro Andarilho disse...

Ai, como eu também queria esse dia de 48 horas para relaxar... estou precisando tanto... :-)))

Grande abraço!