Os primos diziam com maldade que eu nasci quebrando expectativas. Era para nascer Márcia, mas nasci Maurício. Uma questão de gênero, apenas, porque os equipamentos estavam todos em ordem. De enxoval cor de rosa, eu teria assustado a família na primeira semana, não tanto pela roupa, mais por esta cara de homem-bomba já delineada nos tempos de bebê; um bebê com cara de joelho, como qualquer outro, mas nariz grande.
Fui criado em uma família “cristambeira”, meio cristã, meio macumbeira, no bairro fabril do Ipiranga, em São Paulo, bem pertinho do museu dos bichos (o Museu de Zootecnia da USP), onde os animais empalhados faziam com que a gente achasse que baleia era uma enorme ossada e onça era um bicho com olhos de bolinha de gude. Pura bobagem de criança.
Cresci sendo treinado para ser um profissional bem sucedido de classe média ascendente, mas o máximo que consegui foi virar jornalista, artista em potencial em muitas áreas e um espantado observador muitas vezes sem palavras.
Antes que algum idiota resolva dizer que me arrependo de minha profissão, destaco: tenho muita honra em ser jornalista diplomado (apesar de ter sido expropriado dos diretos quando desqualificaram minha profissão e meu diploma).
Mas falemos de minha cultura (e não entenda aí nível de instrução, mas conjunto de saberes e fazeres que constroem a sabedoria humana). Sou uma curiosa mistura de formações imigrantes, como ademais, boa parte dos brasileiros. Este país uniu em mim portugueses e espanhóis, caboclos e caipiras, estudiosos e preguiçosos, com pitadas de costumes japoneses (apanhei muito no Judô), temperos italianos (com massas, claro), sobremesas da roça e o diabetes multinacional que ataca alguns da família.
Hoje, procuro entender melhor as ondas que formaram os mares onde navego. Ainda busco um sentido para navegar, tentando não perder o lirismo, a curiosidade e o senso de orientação dos descobridores (apesar dos temores, dos amores e das piadinhas). Sou um apanhado de muitos, sou a intercomunicação de vários mundos.
(mauricio.cintrao@gmail.com)
09/05/2010
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2 comentários:
Normalmente concordo com as tuas palavras, mas hoje vou discordar.
O Mauricio que nasceu, foi o meu brother caçula que de gordinho chumbinho a guarda-costas do França comigo na Rua Direita, sempre me deu orgulho..
O Mauricio do Som percurcionista do "Amorim" e quebradas da Consolação, ao qual inventei à sombra dele o "iscalho" (Mistura de isqueiro e chocalho) e muitas mulheres curti.
O Mauricio muitas vezes fisica ou espiritualmente é o PAIZÃO.
O Mauricio que jornalista, um dia era turista na Disney chorando o dislumbre de ver o Mickey e na semana seguinte dentro de uma favela vendo a sua miseria.
De Jornalista a Escritor... de irmão a pai... de filho a marido... de tomador de sorvete a tomador de insulina... De professor a estudante de novo... e tantos outros de... a....
te digo uma coisa...
Vc é um exemplo e um orgulho pra mim!
Abraços
Adorei esta crónica, ainda bem que os mares onde navegas também são portugueses, que por tradição andam sempre a tentar descobrir novos mundos...e foi assim que tudo começou, com a descoberta...ou achamento do Brasil, com a ida mais tarde de muitas famílias a tentar achar a 'árvore das patacas', depois,através das novas tecnologias, somos todos apanhados com a intercomunicação dos nossos mundos...e que bom podermos comunicar!!!
Um grande abraço, Belmira Estrela
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