Me formei na faculdade há pouco menos de 30 anos. É quase a idade do meu filho mais velho. Depois disso, fiz vários cursos de diversas naturezas, mas nada que se comparasse à formalidade (ou ao rigor científico) de um pós-graduação.
É certo que, em nome da minha sanidade mental, não escolhi um pós-engravatante que desse nomes novos para coisas velhas ou um MBA em excel mania avançado. Estou cursando Cultura Popular Brasileira na Universidade do Vale do Paraíba, a UNIVAP, aqui em São José dos Campos.
(eu sou o véio gordão de blusa pólo verde-azul; dançávamos "no baião da Mariquinha caranguejo peixe é", de Lagoinha, SP - Foto da professora Zuleika Stefânia; O japa é o professor Alberto Ikeda).
Ainda estou conhecendo(e reconhecendo) os mestres. Mas já deu para perceber que aqui ninguém morre de picada de cobra, de coice de jegue nem de raio em tempestade. É gente sabida, pela leitura e pela vida, pelo respeito e pela fé no saber.
Como se não bastasse, estamos situados em uma região riquíssima em manifestações da cultura tradicional, que passa pelo afro descendente, o indígena, o caboclo, o caipira, o europeu deserdado (ou degredado) e o asiático renascido.
É região que vai da viola à rabeca, dos presépios em argila às imagens coloridas das figureiras, de São Benedito a Aparecida, das assombrações ribeirinhas às histórias encantadas, do Saci à Curupira, da paçoca de pilão ao bolinho caipira (qual deles aliás?).
Na verdade, eu já estava caipira e não sabia. O fato é esse. Vocês mesmos já sabiam disso porque percebiam nas crônicas interioranas que escrevia vez ou outra. Curioso, porque eu não desejava vir para o Interior. Era um ogro da Capital. Tive que mudar por força do trabalho e peguei logo o gosto pela região.
Primeiro, virei caipira em Pinda, minha querida Pindamonhangaba adotada de coração. Depois em São José, essa tecnológica cidade que tem de tudo um pouco, do avião ao rugby, da orquestra sinfônica às brejeirices deliciosas.
Mais tarde, acaipirei-me pelo Vale adentro, da Silveiras do tropeirismo sempre vivo à Cunha da cerâmica noborigama tupiniquim, da Jacareí das Paulistinhas à Guararema da Escada e de São Longuinho, Guará de Frei Galvão e Queluz das revoluções.
Enfim, o fato é que voltei a estudar e estou sofrendo um bocado para reacostumar a conduzir a conjugação de autores e conhecimentos diversos em favor de textos coesos, coerentes e inovadores.
A produção acadêmica logo vai embalar e deve promover influências em minhas crônicas. A começar por esta, que retoma minha jornada acaipirante a caminho de mim mesmo.
Voltei a estudar, mais do que tudo, para redescobrir minhas preferências abandonadas da música, da escultura, do teatro e da poesia/trova. De quebra, vou rever meus pais, caipiras de São João da Boa Vista (ele) e Jaú (ela), que perderam os sotaques, mas não perderam a lindeza, nunca.
Por eles e pelos meus filhos, quero compreender melhor as raízes que emprestaram a sabedoria dos remédios, dos temperos, da intuição e do sorriso no olhar. Quero entender porque perdemos isso e como fazer para reconquistar.
O fato é que voltei a estudar e isso é gostoso demais. O fato é que voltei a sonhar.
(quer fofocar? Mande um e-mail mauriciocintrao@gmail.com)

10 comentários:
O professor que mais me cativa na sala de aula é um velho coxo de sobrenome Perillo, um grande antropólogo, que muitos anos antes de me ensinar ensinou o meu pai.
Espero seguir seu exemplo e nunca parar de estudar, BICHO!
É Mau, fico feliz que o curso esteja caminhando e que a cada sábado a gente se sinta mais atraídos pelo universo que é a Cultura Popular... É um caminhar sem fim, é viciante.... depois que o bichinho pica não dá pra parar nunca mais e olha que nunca mais é muito tempo... Conte comigo! Bjos da (coordenadora) Corinthiana kkk
Entendo bem o que vc está sentido, também já fazia um tempinho que eu não me debruçava em tantas teorias. Mas é muito bom, faz a gente refletir sobre aquilo que a gente já sentia e sabia por outras formas. Pois pensar a Cultura Popular é pensar sobre a nossa própria vivência. Então, vamos embora que o caminho é longo! Abs Pércila
Meu cronista favorito "não é fraco, não"... Parabéns pela escolha. Nossa cultura regional não poderia ser melhor estudada por alguém tão digno dela. Sucesso!
Querido irmão! Parabéns pela pós. Guardadas as proporções, também estou sentindo essas "emoções" na minha pós que, comparada com a sua, é muito chata! Fico feliz por você. Abreijos do seu irmão ogro e mineirin caipira.
Na minha mais que breve trajetória no ensino superior, a do lado de lá da mesa, não a do lado de cá (que foi um pouco mais que longa...), tive como colega de trabalho a Inezita Barroso, que ministrava os cursos de cultura popular para o pessoal que queria se formar em turismo.
Era engraçado quando ela pedia licença para pegar um copinho de café entre uma aula e outra. Me sentia como que atrapalhando um pedaço encarnado da cultura popular brasilera, que certamente preferia o café feito no fogão à lenha, enquanto procurava não deixar a garrafa pingando. Pois não, pode passar. Quer o adoçante?
Se "acaipirar", no seu caso, me parece ser mais razoável. Estranharia se estivesse se "re-urbanizando".
E os quase-trinta ficam mais próximos ainda no final de semana da páscoa. Tem algo em vista? Um almoço, que tal?, aqui nas bandas da Vila Romana?
:)
Mauricio, Pela foto e pelo texto me parece que o momento é de muita alegria, trocas, experiências, conhecimento e renovação. Fico feliz por se ver caipira e por contribuir com a riqueza da cultura popular de nosso Vale.
Beijo grande. espero te ver em breve pois temos muitas boas novas pra trocar.
Bia
Vc voltou a sonhar e a brilhar, meu doce. Eh uma delicia ver a sua dedicacao, empenho, mesmo qdo um menininho pequenininho, se enfia no meio da mesa do computador, derruba os carrinhos, faz xixi no colchao, e no final da aquele sorrisinho gostosinho, enquanto vc viaja e embarca nas suas pesquisas, textos, leituras e releituras.
Eh uma honra te acompanhar, ajudar, ler os seus textos novamente e ver q vc faz exatamente aquilo q tem vontade de fazer pra vc.
Vc merece.
Amoce,
Brabu
Oi Cintrão! Que bom ter notícias tão boas através das suas crônicas! Sucesso na nova etapa, que pela foto e crônica promete muito prazer durante essa jornada!!
Parabéns! Um "chero" meu rei! Rss
é mano!
A coisa é por aí!
o negocio é não parar!
Engavetamento nessas alturas do campeonato sem comentarios.
Parabens pela iniciativa!
Eu ainda atravesso a rua ao passar em frente a uma escola!
Vou qq hora roubar a Bete e dar um pulo aí para a gente se ver.
Abraços
Postar um comentário