Quase todo dia, tenho emprestado uma ou duas horas das madrugadas para estudar. No começo, parecia extravagância, mas me acostumei à idéia. Aliás, eu e a família nos acostumamos. Já não provoco espanto em ninguém. O taquetaquear do teclado já faz parte dos sons da madrugada para os sonâmbulos domésticos a caminho do banheiro ou da cozinha.
Não é sempre que consigo acordar mais cedo. As rotinas às vezes fazem madrugadas de chumbo. O cotidiano é um triturador de vontades. Mas quase sempre acordo antes da hora para levantar da cama e mergulhar nos estudos. Antes “da hora” do passado, porque o acordar mais cedo criou uma nova hora de acordar.
É curioso perceber esse interesse pelos estudos. Comecei timidamente, há uns dois anos, quando fui atraído pelo teatro de bonecos. Não me pergunte os motivos, pois ainda não sei explicá-los. Pareceu (e ainda parece) fazer sentido entender a influência das marionetes na cultural popular tradicional (e vice-versa).
Ainda não encontrei todos os elos para fechar a corrente de argumentos a favor da idéia de que o teatro de animação existiu no interior brasileiro há séculos. A grande pergunta é: quando as marionetes chegaram no Brasil?
Há quem sugira que o teatro de bonecos teria entrado na vida tupiniquim no bojo da obra dramatúrgica do Padre José de Anchieta. Até agora não encontrei nenhuma evidência que ligue a catequização aos títeres entre jesuítas no século XVI. Também não encontrei nada que desmentisse essa suspeita.
Sabe-se que os jesuítas utilizaram sofisticados recursos da arte teatral para encantar, convencer e cooptar os índios. Não seria de duvidar que bonecos animados fossem empregados para enriquecer enredos envolvendo o poderoso imaginário de céu versus inferno.
Há várias citações de que as óperas de bonecos na Europa tiveram origem nos presépios e na teatralização do nascimento de Jesus. Estudos sobre procissões na Europa também mostram uma forte influência das formas animadas na liturgia e nas representações públicas em festas religiosas.
É espantoso notar a grande quantidade de imagens articuladas ainda existentes em museus de arte sacra utilizadas em procissões, os chamados santos de roca ou imagens de vestir. Para dar maior dramaticidade às celebrações, imagens de madeira ou papier maché na proporção do corpo humano ganhavam vida aos olhos dos espectadores e crentes com texturas, roupas e gestos humanizantes.
Enfim, há muita coisa para conhecer e descobrir. Tenho muitos motivos para acordar mais cedo do que era habitual para ler, pesquisar e me encantar. Porque, no fundo, o que me parece ser mais cativante nesse mecanismo é reflexo da propriedade quase mágica de emocionar do teatro de formas animadas.
Viajo todos os dias pelo mundo fascinante do conhecimento. Seja acordando uma ou duas horas antes do que estava acostumado a fazer, seja aproveitando os preciosos minutos do ônibus fretado para ler a caminho do trabalho ou de volta para casa.
Certa vez, nos meus tempos de menino, quando reclamávamos das lições de casa, uma professora disse: “um dia vocês ainda vão gostar disso”. Não lembro quem era a professora, mas recordo com alegria dessas sábias palavras. Sabedoria de quem provavelmente acordava mais cedo para estudar e se encantar com as imensas possibilidades do conhecimento.
Maurício Cintrão
(escreva para mim, critique, xingue, elogie, reaja mauricio.cintrao@gmail.com)
28/03/2010
Um dia vocês ainda vão gostar disso
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3 comentários:
Saboroso texto, amigo Cintrão.
Abração
a familia se acostumou virgula.... rssss
na cama fica um buraco enooooooooooooormeeee...
bj
Fala Mano!
Sabe onde vc pode achar material sobre marionetes...Museu do Ipiranga!
Lembro de ter visto esses bonequinhos em exposição no sub-solo do museu entre as corridas de pegador la e o guarda a correr atras da gente!
Qto a estudar, fico com a cervejinha!
Abraços mutiplos familiares
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