24/11/2009

O primeiro beijo

O primeiro beijo

Meu primeiro beijo foi obra e graça da Gabriela. Ela foi a grande responsável pela conquista. Tecnicamente, eu também estava lá, é claro, ou não haveria meu primeiro beijo. Mas, de fato, inteiro eu não estava. Estava a milhões de anos luz de distância, pererecando feito um meteorito, de alegria, de medo e de ansiedade.

Porque, para valer, o primeiro beijo era um dos maiores mistérios do Universo, para nós, alunos do IV Centenário, da Rua Bom Pastor. A incógnita não era saber o que fazer durante o beijo. Isso a gente sabia, conversava bastante e discorria a respeito com a mesma naturalidade com que se versava sobre raiz quadrada. O grande problema era saber onde colocar o nariz.

Quando conto essa história, as mulheres riem. Riem porque nunca foram meninos. O nariz, meu Deus, onde colocar o nariz? Devo confessar que, nas teorizações do grupo, imaginava-se o beijo (com nariz), como a entrada de um astronauta na cápsula da Gemini I. Isso porque ninguém tinha coragem de perguntar aos meninos mais velhos como funcionava, para não virar motivo de gozação pelos próximos milênios. O negócio era adivinhar.

Mas as mulheres desconsideram esses momentos solenes e a Gabriela não poderia ser diferente. Nem deu chance para estudos de campo a respeito do assunto. A noite morna de brisa leve e céu estrelado, à beira-mar, foi cenário espetacular para o maior susto de minha vida. Ela veio, agarrou meu rosto e, ignorando solenemente meus cálculos espaciais, mandou bala num beijo de boca cheia.

E eu lá, concentrado, naquele pequeno espaço entre Marte e Ilhabela, sentindo que o Sheppard já estava a bordo mas sem saber se punha o capacete ou não, se fazia contagem regressiva ou abria os pára-quedas. Fiquei meio fora de órbita por algumas horas, com aquela expressão embasbacada de quem foi “abseduzido” por uma marciana gulosa.

Dono de toda essa verve romântica, minha carreira de namorado (naquela época, a gente beijava e virava namorado) durou os dois últimos dias de férias. E como amor de praia não sobe a serra, só voltei a ver a Gaby uma única vez, em São Paulo, para saber que não a beijaria nunca mais. Perdê-la no entanto, acabou não sendo o problema. Doeu, é claro; afinal, eu havia ganho o título de conquistador naqueles braços. Mas a maior dificuldade foi na volta às aulas.

Cometi o deslize de contar ao André, meu maior amigo de classe, que havia conhecido as estrelas nos lábios da Gabriela. Já no primeiro recreio, fui cercado pelos outros colegas, ansiosos por saber: “e o nariz, onde põe o nariz?”.

Só aí percebi que não sabia explicar. E meu primeiro beijo - que daria diploma de galã e direito a líder da turma -, foi tratado como a mentira mais mal contada da volta das férias. Com direito a gozação de todos os garotos mais velhos da escola, justo o que eu queria evitar.

5 comentários:

Ana Vieira disse...

Cintrão, muito legal o seu texto! Faz a gente lembrar de momentos tão ingênuos e gostosos....bjs, Ana (Equipe Petrobras Lubrax)

Elizabete disse...

Meu querido coraçãonhado!
Suas crônicas são sempre um momento agradabilíssimo, onde relembramos tantos detalhes vividos,que não têm preço!!
Não me canso de ler e reler.
Sua sensibilidade é apaixonante!
Tu és um escritor brilhante!
Parabéns!

Eu por Quitéria disse...

Oi meu já Querido Cintrão,
Sou sua mais nova seguidora no Twitter e no Blogger, te encontrei quando pesquisava a palavra soslaio por que eu queria escrever um poema com ela, dai encontrei seu texto Soslaio é...parabéns pelo lindo trabalho...sobre O primeiro beijo, conhece a musica?

Primeiro Beijo (Rui Veloso)
Quero o meu primeiro beijo
não quero ficar impune
e dizer-te cara a cara
muito mais é o que nos une
que aquilo que nos separa ...

Eu ainda não dei o meu primeiro beijos...

Abraços
JackLigeiro (Quitéria di Genaro)

Luis Gustavo disse...

Puxa Maurício! Assim como outros aqui, sua cronica me rendeu recordações particulares, cheias de ingenuidade.
Minha nossa... (nao que eu seja tão fodão) Como eu era um virjão tonto! Recordar nos faz sentir novente o prazer de viver sem medo, de se jogar sem saber em qual buraco vamos cair!
Um grande abraço,
Luis Gustavo Jimmy!

w h stutz disse...

Bravíssimo caro amigo Cintrão!
Conto em canto encantado.
Abração e gracias pela maravilhosa leitura