31/10/2009

Eu e os artesanatos

Muita gente pergunta como consigo arranjar tempo para fazer artesanato. A curiosidade é compreensível. Não é comum encontrar pessoas com atividades profissionais que absorvem, como a minha, e ainda têm tempo para seguir com a carreira de escritor, fazer palestras e produzir artesanato. Não sobra tempo para nada?

O tempo anda curto mesmo, fazendo ou não fazendo tudo o que faço. Meu trabalho oficial absorve a imensa maioria do dia, no escritório e fora dele. E até por conta disso, o potenciômetro que mede o estresse fica, às vezes, com o ponteiro lá em cima (ou lá embaixo, dependendo da leitura). O problema, ou a vantagem, é que as outras atividades funcionam como válvulas de escape; se a vida complica, conto com elas para esvaziar o tanque das amarguras.

É mais ou menos como se eu acumulasse combustível sempre que ficasse de saco cheio. Gasto a lenha acumulada (calma, não tem sentido figurado) com a escrita, as palestras e o artesanato. Entre outras coisas feitas artesanalmente estão pins de geladeira. Ultimamente, tenho me dedicado a produzir figurinhas do folclore brasileiro. Não é de hoje que a Cuca e o Saci têm minha preferência.

O inconsciente é irônico. A Cuca é uma adaptação brasileira da bruxa velha, a Coca que veio de Portugal nos tempos da colonização. Mulher velha e malvada (não porque velha), com cabeça de Jacaré e unhas de gavião. O Saci-Pererê é uma divindade menina, talvez um parente d’além mar do Trasgo português, que acabou sendo misturado com mitos indígenas e africanos. Ele apronta toda a sorte de traquinagens com todo mundo e (segundo a versão que eu prefiro), não o faz por maldade, faz de molecagem.

O meu Saci e a minha Cuca são do bem. E ajudam a espantar os males da estafa. Por isso, me pego a produzi-los nos momentos livres. Mas como fazer se o tempo livre é tão escassso? Tenho uma estratégia que funciona bem. Primeiro, crio várias versões da mesma personagem. Depois, escolho as versões mais interessantes. Em seguida, crio um molde de silicone e passo a reproduzi-los em escala.

O truque está em fazer dezenas de reproduções e deixá-las secando. Uma hora sobra tempo e eu passo a pintar as figurinhas uma a uma, com paciência de quem perdeu o ônibus e só vai ter nova condução no dia seguinte. Às vezes, consigo ficar pintando por horas. Outra tantas, não paro muito mais do que alguns minutos e, de tempinho em tempinho, vou montando o estoque.

A última fornada acabou saindo na capa do caderno Vale Viver, da editoria de Variedades do jornal Valeparaibano, aqui de São José dos Campos (SP). Foi uma homenagem à Festa do Saci e seus amigos, que começa nesta sexta, em São Luiz do Paraitinga, localizada às margens da rodovia que liga Taubaté a Ubatuba.

Neste sábado, 31 de outubro, comemora-se o Raloim caipira, porque esse é o Dia do Saci. Viva o Saci. Viva nóis! Viva Tudo! Viva o Chico Barrigudo!

Aliás, sugiro que vocês conheçam o site da entidade festeira, a SOSACI – Sociedade dos Observadores de Saci: http://www.sosaci.org/

E dá licença que eu vou sacizar. #saci

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