03/04/2009

Não, você não sabe...

Sabe, pai? Não, você não sabe... Sua filha foi dormir chorando. Sabe por quê? Não, você não sabe. Não deve fazer a mínima idéia. Ela está desistindo de você. E isso dói. Dói para ela, é claro, porque você nem desconfia que isso esteja acontecendo.

Você não a vê há meses. Parecem anos para ela. Parecem séculos. E a cada dia que passa, a garotinha de olhos brilhantes desenvolve um olhar cansado, envelhecido, de quem já não tem mais paciência de esperar.

Mas você não vê, então, não sabe. Só pode ser esse o motivo de tanta indiferença. Porque, se soubesse, se percebesse o tamanho da dor que provoca, agiria diferente. Teria um pouquinho mais de consideração por ela.

Mas você não sabe, não percebe. E usa argumentos insustentáveis (até para uma criança) para explicar o inexplicável. Você não vem visitá-la e essa verdade adquire dimensões assustadoras.

Se você ainda estivesse longe... Mas os sonhos de abraçá-lo estão apenas a uma hora de viagem, talvez um pouco mais. Ela já compreendeu isso. E sabe que não há muitos motivos para justificar sua falta.

Você está longe e não sabe, mas ela já se sentiu culpada por desejar sua vinda. Chegou a ficar brava com ela mesma por desejar vê-lo. Pois se sentia malvada por não conseguir disfarçar a tristeza provocada pela sua ausência. Mas isso está virando passado.

O tempo passa e ela vê outros exemplos na escola, na vizinhança, até em casa. E faz comparações. Outros pais, mesmo separados, fazem muito mais do que você. E ela já percebeu que dinheiro e posses nada têm a ver com a questão.

A falta de dinheiro atrapalha? Claro que atrapalha. Mas se há empenho e amor, até a falta de dinheiro se apequena. Porém, você não vê, então, não percebe. A neblina dos seus problemas roubou a sua capacidade de enxergar.

Saiba que sua menininha cresce, vira moça, evolui. Logo, será adolescente e você não terá mais oportunidades para se fazer presente.

Tristemente, você ocupará uma posição nebulosa no passado dela. Será quase um estranho. Como se desejar o pai por perto fosse coisa de criança, um daqueles desejos mágicos dos tempos de infância.

Ainda há tempo. Mas você não sabe, você não vê...

5 comentários:

Viviane disse...

O tempo é a única coisa q se perde e não se recupera mais, meu doce...
Te amo

Blog do Cintrão disse...

A gente também perde a esperança. Mas recupera.

Patrícia disse...

Hj em dia estamos encontrando muitos filhos órfãos de pais vivos...é realmente uma lástima. Longe de sermos perfeitos mas, uma coisa eu tenho certeza ....eu não desperdiço um minuto que eu possa passar com meus filhotes. Seja brincando, correndo , falando bobagem ....eheheheh eu amo tudo isso.

TIO BETO disse...

Como sempre vc emociona!
Abraços

Caca disse...

Ouch, adoro sutilezas escancaradas hehe