02/10/2008

O bom ladrão


O jornal O Estado de S. Paulo publicou recentemente informações sobre uma exótica ocorrência policial do início de setembro, em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul. A central de atendimento de ocorrências da Brigada Militar, a polícia gaúcha, recebeu o telefonema de um ladrão de carros confesso.


“Seguinte, eu vou ser bem sincero prá ti, tá? Eu roubei um carro ali, tá, agora”, informou para surpresa do atendente. “E eu peguei o carro e tinha uma criança dentro, cara, e eu não vi”.
Deu as instruções sobre o local onde estava o carro e completou: “então, tu manda uma viatura e manda o filho da p... do pai dele pegar ele e levar prá casa, um piazinho”.


A polícia chegou ao local e encontrou o carro intacto, com a criança ainda em pleno sono, no banco detrás. A mãe e o padrasto haviam estacionado para entrar em um bar. Deixaram o carro com as portas destravadas com o menino dentro.


Não vou fazer apologia de bandido. Ladrão de carros é criminoso como qualquer outro vagabundo do gênero. Mas a história é curiosa, e disso não há dúvida.


Em algum recanto perdido, o ladrão ainda preserva um mínimo de humanidade. Poderia ter deixado carro e menino à própria sorte. Era só fugir e pronto. Mas escolheu avisar a polícia.
O assunto ainda vai render outras notícias. Até porque, a polícia civil indiciou o casal que abandonou a criança (ele e ela declaram que foi por questão de minutos) por abandono de pessoa incapaz, o que pode dar de seis meses a três anos de cadeia a ambos.


Mais importante do isso, entretanto, é que o caso gerou uma acalorada discussão. Se for identificado, o ladrão deve ser preso? O que ele fez caracteriza-se como crime? Pelo fato de ter bom senso e avisar a polícia merece o abrandamento de eventuais punições? Afinal, ele é um bom ladrão?


Já ouvi essa argumentação há pouco tempo, quando políticos foram acusados de malversação de fundos para comprar votos de parlamentares em nome de causas nobres. Corrupção do bem?
Não existe bom crime. Portanto, não pode existir bom ladrão.


Mas que o bandido de Passo Fundo foi mais ético que muito político por aí, ah, isso não tem como negar.


(crônica publicada no Jornal do Site Odonto - http://www.jornaldosite.com.br/)

4 comentários:

Anônimo disse...

Bem vindo, primo Mauricio!

A realidade do Brasil não é muito diferente de Portugal...mas existem pequenas diferenças.
Aqui houve também um caso de abandono de três crianças sózinhas num quarto, enquanto os pais despreocupadamente jantavam num restaurante, uma das crianças, a Maddie, a mais velha, desapareceu, não deixando qualquer rasto até hoje.
O caso foi encerrado e os pais nunca foram julgados por negligência ou abandono, vivem normalmente em Inglaterra sem qualquer penalização.
Talvez um dia se descubra toda a verdade para este caso tão mediático.
Um abraço, prima Belmira

Anônimo disse...

Meu amigo Mauricio.... concordo totalmente com você... Não existe bom crime ou bom ladrão... O problema é que ser honesto deixou de ser obrigação e virou virtude... Um grande beijo pra familia dos amigos Juliana e Marco.

Blog do Cintrão disse...

Prima Belmira, muito obrigado por ainda vistar este blog. No Brasil acompanhamos o caso da pequena Maddie (a teatralização da tragédia humana pela Mídia também nos atinge). Tivemos um caso tão terrível quanto por aqui, em que uma pequena foi lançada pela janela de um apartamento. Em todos os casos, prefiro continuar acreditando que foram exceções. Os seres humanos são melhores do que isso.
Beijos, prima.

Blog do Cintrão disse...

Ju e Marco, obrigado pela sua leitura. É verdade, o honesto virou incomum. Esse talve seja o maior de todos os nossos desafios: ensinar aos nossos pequenos que a ética, o respeito pela vida e a tolerância são valores insubstituíveis.