21/02/2008

Eu e minhas coisas simples



Busco encontrar os caminhos das minhas andanças por meio do folclore. É um movimento muito titubeante, de quem ainda aprende a andar. O sentido já havia sido escolhido há algum tempo, quando me encantei pela figura soberana do Saci, com os amigos de São Luís do Paraitinga (SP).

Você pode não acreditar, mas naquela pequena cidade do interior brasileiro existe a impagável SOSACI – Sociedade dos Observadores de Saci que, diferente do que possa sugerir, não surgiu de nenhuma instituição psiquiátrica. Reúne intelectuais e interessados pela cultura que propõem a revalorização do folclore e das culturas populares.

A técnica da cerâmica a frio combinada com a criação atabalhoada me levou a produzir centenas de carinhas da divindade menina. Sim, eu contribuí com a multiplicação do Saci. Audácia: até arrisquei fazer Sacis sem cachimbinhos, o que é modernidade demais para uma figura muito mais antiga do que as campanhas anti-tabagistas.

Depois, dedilhei massinhas para a confecção de pequenas reproduções de violas. Violinhas de mentira, é bom estacar, que se transformaram em broches e ímãs de geladeira, ou “buttons” e “pins” como dizem os mais moderninhos. Na seqüência produzi pregadores de roupa travestidos de clipes de papel e ímãs prendedores para geladeira.

Daí foi um tirico para seguir em meus delírios. E viajei em direção à Cuca, ao Lobisomem e ao Boitatá. É o que estou fazendo neste momento, já com os olhos voltados para o Currupira, a Iara, e a Mula Sem Cabeça entre tantas fontes inspiradoras do imaginário popular.

Quero revisitar minha infância e, quem sabe, descobrir o que deixei passar sem registro. E especialmente recuperar o tempo perdido para oferecer aos meus filhos e aos amigos deles a chance de travarem contato com o que já foi natural um dia.

Acreditem, não era apenas em São Luís do Paraitinga que os Sacis saracoteavam à vontade. Há poucas décadas eles viviam nos jardins de nossas imaginações sem medo de desmatamento ou da sufocante globalização do entretenimento.

Empacotaram para viagem a cultura culinária brasileira. Dedetizaram a paca, o tatu, a cotia e o mico. Dizimaram o peão, a amarelinha, o passa-anel. Empastelaram a riqueza criativa das pessoas comuns. A catira, o moçambique e os congos já tiveram muito mais importância. Será que ainda em jeito?

Faço meus bichinhos de massinha. Mostro para alguns, exibo-os para outros, dôo alguns para ajudar a esta ou aquela instituição. Faço isso só para não perder o jeito. E quem sabe colaborar para que outras pessoas adquiram o hábito de enxergar o universo mais próximo sem medo de reconhecer a si mesmos nas coisas mais simples.

Às vezes tenho a impressão que a simplicidade envergonha.

2 comentários:

Kenia Mello disse...

Coloca algumas fotos dos seus sacis e demais massinhas aqui, Balu. :)

Beijo.

Kenia Mello disse...

Quanta coisa linda, Balu!
Essas violinhas estão de uma delicadeza só!
Obrigada por ter ido ao meu blog.

Beijos.