17/09/2007

Não é justo


Leio em artigos diferentes na Internet que um gato não foge. É muito raro que isso aconteça. Normalmente, os bichinhos saem e voltam ao seu cantinho, em casa. Os que não voltam, morreram ou foram mortos.

Fico triste, porque tínhamos dois gatinhos em casa. A Bela, que vai e volta o tempo todo. E o Bolinha que, no começo, não era de sair muito. Mas depois ele acostumou com a rua. Um dia saiu e nunca mais voltou.

Fico sabendo pelos vizinhos que a Bela e o Bolinha andavam aprontando pelas redondezas. Atacavam gaiolas de pássaros, faziam suas necessidades em gramados alheios, azucrinavam os cachorros da região. Gatos não são bichos para serem presos em coleiras. Mas também não são animais assassinos. É só espantá-los que eles fogem.

Queria acreditar que o Bolinha tivesse fugido, quem sabe atrás de alguma namorada. Depois, cheguei a ensaiar alguns delírios sobre alguém que tivesse roubado o bichano porque ele é lindo e muito carinhoso. Mas é cada vez mis difícil acreditar em finais felizes.

Sites de proteção a animais denunciam maus-tratos aos bichinhos. Trazem algumas fotos de animais que serviram ao capricho de pessoas perversas. Como tem gente doente no mundo! Os gatos são os prediletos desses animais de duas patas que se divertem maltratando bichinhos. Sinto arrepios em imaginar que tenham feito maldades com o Bolinha.

Ele chegou em casa com quarenta dia de vida (a foto dele, aí em cima, é dessa época). E desde então fez parte de nossa vida por quase um ano. Era o queridão de todo mundo, até porque foi criado no colo e adorava brincar com as crianças. Brincava de “luta”, mas não machucava ninguém. Sabia que era brincadeira. Talvez por isso possa ter sido pego em alguma armadilha.

Sinto saudades do miado dele no corredor do quintal. A Bela, sua amiga de brincadeiras (nossa, como brincavam!), também sente saudades. Às vezes, ela volta dos seus passeios desanimada. Circula pela casa miando baixinho. Não é falta de água ou comida. Acho que é falta dele.

Como ela, olho para fora triste. O gatinho não deu mais sinal de vida. Preferiria imaginar que fui trocado por outro dono. Mas já não consigo me enganar. Apesar de estar vivo na memória, acho que o Bolinha morreu.

Quatro meses depois do seu sumiço, só agora consigo escrever sobre isso. Esse mundo não é justo.

11/09/2007

Não me venha com frescuras

Pera lá! Pai fresco, não! Pai recente. O Pedro nasceu há poucos dias, mas eu continuo o mesmo cara de sempre, sem frescuras. Quer dizer, sem muitas frescuras. Ainda acho uma chatice ter que cortar cabelos, tomar banho pela manhã e à noite, ir ao dentista e prestar contas em final de viagem de trabalho.


Mas aí não sei se é frescura. É um pouco de excentricidade, digamos. Como também é excêntrica a resistência em levar o carro ao lava-rápido, em fazer compras com o cartão de supermercado da Viviane, minha mulher, comprar fiado em farmácia e mercearia e pedir qualquer coisa às pessoas.


Nesse aspecto sou muito fresco. Odeio quebrar-galho para mim. De empréstimos a aumentos de salário, de favores a "jeitinhos" de uma forma geral, sou avesso a pedir o que quer que seja. Aí sim pode ser frescura.


Porque sou malabarista para pedir coisas em favor de amigos e clientes. Mas não peço nada para mim. Tenho vergonha. Foi assim com a divulgação do meu livro, "O gordinho e a menina de rosa", que a livraria Maxsigma do Shopping Colinas, em São José dos Campos, ainda deve ter em estoque (se é que já não fez fogueira). A divulgação foi mediana porque fiquei sem jeito de pedir.


Aliás, com o meu livro descobri que um autor precisa ser um pidão de marca maior caso não tenha estrutura de top model para divulgação e distribuição. Meu mestre e editor Airo Zammoner bem que cantou a pedra. Eu precisaria "trabalhar" meu livro. Isso significaria colocar exemplares embaixo do braço e ir à luta, feito mascate.


Não fiz isso. Um pouco foi porque a minha carga de trabalho é de gente grande e outro tanto porque fiquei com vergonha de bater nas portas de escolas, universidades e instituições para oferecer livros e palestras. Poderia ter vendido muitos livros. Não vendi quase nenhum. Doei dezenas de exemplares, mas aí foi por prazer, não por necessidade.


Mas falávamos da frescura de pai novo. Bom, para quem não sabe, meu quinto filho, o Pedro, nasceu no dia 20 de agosto. Podemos dizer que é temporão, uma vez que a Júlia, filha da Viviane, vai fazer oito anos em outubro e a Jéssica, minha filha menor, fez 12 em maio.


Eu já era babão com os outros quatro filhos. Agora, babo de desidratar. E começo a ter desejos de pai novato. Quero ir jogar bola com o mais novo, ver as moças bundudas no shopping com ele ou contar piadas juntinho e rir muito. Não agüento essas coisas de "espera o menino crescer, homi!", como reclama a mãe dele.


Mais isso não é frescura, é ansiedade. É vontade de ver o mundo com esse filho novo que não era programado. Ele veio sem pedir licença (e eu quase enfartei quando fiquei sabendo que viria). Chegou com toda a pompa e circunstância às 21h35 de uma segunda-feira. Saiu da barriga da mãe com um chorinho tímido, suave, de criança que parece saber que vai ser muito amada.


Na verdade, o Pedro já está sendo muito amado, mas eu não vou dar detalhes porque vocês já vão começar com aquela coisa de "ih, olha que frescura!", "tinha que ser pai fresco, mesmo!" etc e tal. Porque eu sou pai recente e excêntrico, mas não sou fresco. Só porque eu danço feito o Homem Aranha Gay com o menino no colo? Ah, isso não é frescura, é alegria!!

(publicado pelo jornal Valeparaibano, caderno Vale Viver, no dia 06/09)