10/01/2010

Barulhar

Gosto do verbo barulhar.

Até bem pouco tempo, usava a palavra meio em tom de brincadeira e nem sabia que era verbo dicionarizado. Por acidente, acabei parando no Aurélio e encontrei o verbete.
Estava procurando “marulho” e não sei por quais cargas d’água, acabei arrastado pela correnteza da curiosidade até o verbo barulhento. Agora, à distância daquele momento, faço algumas suposições.

Marulho, devia estar imaginando, é o som do mar. Nada disso! É o movimento ininterrupto do mar. Às vezes, nem faz barulho. Ato contínuo, devo ter ido xeretar pelos lados do “B”, talvez na dúvida de que “barulho” pudesse significar o movimento constante do bar. Não, barulho é barulho e ponto final.

Bar é barulhento, na maioria dos casos. Mas nem mesmo as lojas de conveniência têm barulho permanente. Entenda-se aí, barulho mesmo, não aqueles tin-tin-tins de máquinas eletrônicas ou os ron-ron-roncs de motores de frigorífico.

Mesmo os bares à beira-mar não têm tanta constância assim. Barulham apesar dos marulhos e da gente mareada que vem e vai ao ritmo das marés e da madrugada.

Marulham as correntezas, os calores e os frios da água salgada. Barulham em diversos humores pessoas e copos, navegando pelo bar. À beira-mar, ali, do ladinho do bar, o barulho das águas, entretanto, não é marulho, é chuá.

18/12/2009

Tem anti-vírus aí?

Quando o meu irmão Beto contraiu erisipela, escrevi uma crônica empolgada em defesa do mais velho, porque era uma grande injustiça dizer que a doença era característica de bambis. Tirei um sarro, é claro, porque irmão foi feito para chatear o(s) outro(s).

Jamais imaginaria que o sarro se voltaria contra o sarrista. Descobri esta semana que contraí erisipela na perna esquerda. Ainda não sei a extensão do problema. Sei que enche muito o saco. Perna prá cima, castigo sentado e muito antibiótico.

Amanhã, faço exames de sangue para avaliar a extensão do estrago. Na semana que vem volto à infectologista para saber se o antibiótico em dose equina que tomo a cada doze horas está fazendo efeito ou não.

Ô, bactéria calhorda! Parece vírus de computador.

01/12/2009

PARA CANTAR EM INGLÊS


(este texto é para relembrar, já tem uns 4 anos, mas ainda é atual)

Tenho vários defeitos. O mais grave deles, talvez, seja não falar nem escrever em inglês. Aliás, eu não entendo nada de inglês. Para falar a verdade, isso não faz falta nenhuma no meu dia-a-dia. Vivo em Português. Trabalho em Português. Amo em Português. Mas fico mordido de raiva quando gosto de uma música em língua inglesa e não consigo cantá-la. Morro de inveja dos amigos que cantarolam as estrofes igualzinho aos artistas. E isso não é de agora, vem desde pequeno, quando o pessoal ouvia Elvis e Beatles e eu boiava.


Lembro que naqueles tempos havia um curso transmitido pela TV Cultura, de São Paulo, em que as lições eram dadas em cima das letras de música. Puxa, como eram legais aquelas aulas. Caíam como uma luva para as minhas modestas ambições. Não quero saber inglês para fazer grandes negócios ou para escrever uma declaração de amor à Sharon Stone. Queria saber cantar em inglês, só isso.


O meu filho João Paulo, resolve bem essas questões. Ele põe a música no driver do computador (aquele tocador de CD do micro) e canta do jeito dele, na base do iéis-bêibi-tchíqui-tchu-guéder. É bonito de ver. Ele gosta das músicas e acompanha como entende, imitando os sons. E se diverte. Sabe ouvindo o quê? The Beatles. Veja só que coisa. Ele curte Beatles e canta com eles na base do "tróbous-cróbous" como eu nunca tive coragem de fazer nem quando menino, muito menos depois de adulto. Não tenho a mesma coragem, definitivamente. Em público, ainda, nem pensar! Até faço isso sozinho de vez em quando, no banho, por exemplo. Só quando não tem ninguém em casa. E ainda canto baixinho para não dar bandeira.


Puxa, deveria ter um curso de inglês para quem deseja apenas cantar. Nada que implicasse em ficar repetindo dis-is-a-têibou ou gúdi-mórnin-títcher. Seria um curso para cantores frustrados como eu. Tenho certeza que existem outros candidatos a cantores, fãs dos Beatles e analfabetos em inglês como eu. Tem que haver!


Não me interessa entender ou traduzir as letras. Não, seria uma decepção. Já vi algumas versões de músicas de John e Paul. Fiquei horrorizado. Acho que deve ser como encontrar uma pessoa que você só conhece das salas de bate-papo da Internet. Não tem nada a ver com o que imaginava. "Rélpi-ai-nidi-sambóre" é lindo porque é "rélpi-ai-nidi-sambóre, ôô, iéis!". Nada de cultura, nada de ilustração. Eu quero apenas cantar igual ao disco, poxa! E não ria que é sério. Ninguém liga para um garoto que arrisca as primeiras melodias cantadas em um inglês de marciano, como o meu filho. Mas um velho como eu, ah!, seria motivo de gozação. Tenho certeza.


Imagine a cena. Eu aqui, escrevendo, ouvindo meu CD e murmurando um empolgado: "sânsin-in-de-uêi-chi-uuuuussss". O Gabriel, meu filho mais velho, que fala, lê, canta e escreve em inglês, olharia com aquela cara de John Wayne na frente de um apache e diria: "Tsk! Tsk! Por que você não aprende inglês de uma vez, heim, pai?". Ele não entenderia a resposta. Eu não quero aprender inglês. Eu só quero cantar os Beatles!

27/11/2009

O que esperar do Twitter?

Uma das recentes curiosidades da Internet é o Twitter, o microblog que movimenta milhões de fãs em todo o mundo. As pessoas estão se reencontrando em um espacinho de 140 caracteres.

Com poucas palavras, algumas imagens e eventualmente música, alguns voltam a amar. Outros deixam de amar uns para amar outros. A moça revela tristezas e os seios. O rapaz recita poesias e asneiras. Vetustos professores encantam menininhas. Meninas travessas enlouquecem possíveis professores. Poetas filosofam. Filósofos contam piadas.

O fato é que muitas pessoas mudaram seus hábitos diários e agora trocam aspirações, angústias, piadas e malícias (não nessa ordem necessariamente) pelo Twitter. Gente com o eu que há muito tempo não teclava ao vivo nesse mundão eletrônico. De repente, voltou a ser interessante trocar impressões no mundo digital, sem impressões digitais, na maior parte dos casos.

O mais curioso é que personagens ganham celebridade e continuam sendo personagens, sem necessidade de revelar seus criadores. Há muitos casos em que a brincadeira está exatamente em não sair da personagem e procurar variações que justifiquem a sobrevivência do alter ego.

Ainda aprendo com essas novidades. Apanho dos mecanismos de acompanhamento de comentários e mensagens, mas já me entendo bem em algumas esferas desse universo de gente conversadeira. E bote conversa nisso. Dependendo do de twitteiros que você acompanhe, as mensagens mudam na velocidade do aperto da tecla “enter”.

Mas eu estou escrevendo como se vocês não soubessem o que é Twitter. Santa ingenuidade! Aliás, enquanto perco tempo nesta lenga-lenga, um monte de gente já postou mensagens que ainda não li e, com certeza, estou ficando desatualizado.

Pena que eu não tenha tempo para acompanhar os comentários o dia inteiro. Reservo o início da manhã, a hora do almoço e a noite para xeretar o que se twitta por aí. E recebo tanta informação que nem sei o que fazer com tudo isso.

Essa talvez seja a grande novidade: como lidar com tanta novidade. Hehe.

24/11/2009

O primeiro beijo

O primeiro beijo

Meu primeiro beijo foi obra e graça da Gabriela. Ela foi a grande responsável pela conquista. Tecnicamente, eu também estava lá, é claro, ou não haveria meu primeiro beijo. Mas, de fato, inteiro eu não estava. Estava a milhões de anos luz de distância, pererecando feito um meteorito, de alegria, de medo e de ansiedade.

Porque, para valer, o primeiro beijo era um dos maiores mistérios do Universo, para nós, alunos do IV Centenário, da Rua Bom Pastor. A incógnita não era saber o que fazer durante o beijo. Isso a gente sabia, conversava bastante e discorria a respeito com a mesma naturalidade com que se versava sobre raiz quadrada. O grande problema era saber onde colocar o nariz.

Quando conto essa história, as mulheres riem. Riem porque nunca foram meninos. O nariz, meu Deus, onde colocar o nariz? Devo confessar que, nas teorizações do grupo, imaginava-se o beijo (com nariz), como a entrada de um astronauta na cápsula da Gemini I. Isso porque ninguém tinha coragem de perguntar aos meninos mais velhos como funcionava, para não virar motivo de gozação pelos próximos milênios. O negócio era adivinhar.

Mas as mulheres desconsideram esses momentos solenes e a Gabriela não poderia ser diferente. Nem deu chance para estudos de campo a respeito do assunto. A noite morna de brisa leve e céu estrelado, à beira-mar, foi cenário espetacular para o maior susto de minha vida. Ela veio, agarrou meu rosto e, ignorando solenemente meus cálculos espaciais, mandou bala num beijo de boca cheia.

E eu lá, concentrado, naquele pequeno espaço entre Marte e Ilhabela, sentindo que o Sheppard já estava a bordo mas sem saber se punha o capacete ou não, se fazia contagem regressiva ou abria os pára-quedas. Fiquei meio fora de órbita por algumas horas, com aquela expressão embasbacada de quem foi “abseduzido” por uma marciana gulosa.

Dono de toda essa verve romântica, minha carreira de namorado (naquela época, a gente beijava e virava namorado) durou os dois últimos dias de férias. E como amor de praia não sobe a serra, só voltei a ver a Gaby uma única vez, em São Paulo, para saber que não a beijaria nunca mais. Perdê-la no entanto, acabou não sendo o problema. Doeu, é claro; afinal, eu havia ganho o título de conquistador naqueles braços. Mas a maior dificuldade foi na volta às aulas.

Cometi o deslize de contar ao André, meu maior amigo de classe, que havia conhecido as estrelas nos lábios da Gabriela. Já no primeiro recreio, fui cercado pelos outros colegas, ansiosos por saber: “e o nariz, onde põe o nariz?”.

Só aí percebi que não sabia explicar. E meu primeiro beijo - que daria diploma de galã e direito a líder da turma -, foi tratado como a mentira mais mal contada da volta das férias. Com direito a gozação de todos os garotos mais velhos da escola, justo o que eu queria evitar.

13/11/2009

Afastamentos

Os afastamentos acontecem e fazem parte da vida. As pessoas têm suas coisas, suas vidas. Nos últimos tempos, falta tempo. Falta tempo para muita gente.

Tenho pensado muito nisso. Queria parar e ligar para as pessoas queridas que há muito não vejo. Fico triste porque a rotina de compromissos me afasta do próprio desejo. Esqueço e, quando lembro, já não há tempo.

Quem está afastado, porém, não precisa estar distante. Amigo que é amigo, sempre está presente. Os amigos ficam conosco. Onde quer que estejamos, nos acompanham. É quase uma sina. Ficam pertinho, apesar de estarem a quilômetros, às vezes.

Aprendi há muito tempo que os amigos não são apenas eles e suas roupas, manias, gostos e sorrisos. São tudo isso e o que por eles sentimos. É assim que nos transformamos em amigos.

Para tê-los presentes, os amigos não precisam acampar em nossos caminhos. Eles simplesmente ficam. E continuam ficando, queridos, presentes, a despeito da falta de um abraço gostoso.

Neste momento, por exemplo, estou acompanhado enquanto escrevo.
Ficamos por aqui, solitários no garimpo dos pensamentos. Estamos eu, o computador e não sei quantas pessoas queridas. Muitas delas, há anos não vejo. Solenes, dividimos o silêncio barulhento da criação.

Tomam um cafezinho, zombam de minhas dificuldades, participam de minhas angústias, alegrias e necessidades. Ninguém vê, ninguém de fora sente. Eles estão em mim, na verdade.

Mesmo que não se queira, as pessoas que importam passam a fazer parte da gente. Talvez por isso, seja tão difícil a amizade. O perfume do amigo é permanente, não sai. E o que fizermos de errado ficará, para sempre, com o perfume de nossa gente, de nossos amigos.

No fundo, no fundo, os afastamentos não deveriam incomodar. Por uma ligação qualquer, uma internet intergalática que não usa Windows nem cai no meio do bate-papo, volto a conversar, mesmo sem querer, com as pessoas de quem gosto.

Escrevo agora e sinto os perfumes de muitas amizades. Emprestam palavras, sugerem sentimentos e dão a certeza de que, até nos piores apertos, sozinho eu não fico.

Alguns médicos ainda não sabem, mas o corpo humano é formado por cabeça, tronco, membros e... amigos.

10/11/2009

"Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores,
matam nosso cão,e
não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada."

Eduardo Alves da Costa - No caminho com Maiakovski