18/04/2009

O caminhar e o choro



O Pedro usou esta semana seu primeiro par de tênis. Adorou e não quis mais tirar os calçados. É engraçado acompanhar esses detalhes da evolução dos filhos. São momentos que a gente guarda para sempre.

O pequeno Pedro já é dono de três ou quatro pares de sandálias de borracha (acho que chamam papetes, aquelas de prender com elástico, no calcanhar). Agora, com os tênis, ele inicia literalmente uma nova caminhada pelo mundo.

Esse momento do Pedro me lembrou da minha filha Jéssica, quando a conheci (e me apaixonei) há 12 anos. Foi com sandalinhas brancas e vestido creme que ela chorou pela primeira vez no meu colo, ainda sem intimidade, balbuciando uma ou outra palavrinha difícil de entender. Era março de 1997 e eu começava uma nova caminhada pelo mundo. Acho que usava tênis, mas não tenho certeza.

Naquele dia, fui ao Interior de São Paulo conhecer meus filhos: o João Paulo, que tinha seis anos, a Mônica, que tinha quatro, e a pequena Jéssica, de quase dois. A princípio, achei um absurdo trazê-los todos juntos para casa. Não tinha dinheiro, nem perspectivas de melhorar de vida. Mas o choro da pequenina encontrou dentro de mim os caminhos do convencimento. Foi o jeito da Jéssica se instalar em meu coração.

Nunca é demais lembrar: trazê-los para minha vida foi um desafio que não assumi sozinho. Uma decisão dessas é difícil de tomar sozinho. Foi uma ação que resultou de um projeto desenhado e executado em conjunto com a Regina, com quem era casado na época. Gabriel, meu filho mais velho, que tinha 16 anos de idade, também participou das discussões. Mas a decisão de adotá-los foi do então casal.

Depois desses 12 anos, o Pedro, agora, é o novo pequenino da minha vida. Hoje, sou casado com a Viviane e Pepeu é o sexto filho em uma história que tem dois biológicos, três adotivos e uma enteada (que é filha, também). Tudo isso em três casamentos. E por uma curiosa coincidência, os tênis conquistam os pés do pequenino Pedro no mesmo mês em que se completam 12 anos da entrada de três dos meus filhos em minha vida.

A Jéssica já chorou muitas outras vezes desde que conquistou meu coração. Em alguns casos, chorei junto, amparando e abraçando. Em outros, fui o motivo do choro, seja por um não, uma palmada ou um castigo qualquer. Houve casos em que ela chorou e não tive como impedir, mesmo estando por perto. Tantos outros choros não aconteceram porque eu pude agir. Ambos já choramos em separado aqui ou ali (às vezes pelo mesmo motivo) e porque a vida é assim mesmo: leva a gente chorar e não há o que se possa fazer.

Vendo o Pedro caminhar aos tropeções com seu tênis novo, volto a ficar emocionado e disfarço o choro de pai admirado, feliz por testemunhar mais essa conquista da vida. E celebro a lembrança das tantas conquistas que já tive com todos os filhos, cada um a seu tempo, cada um a seu modo.

Ainda vou rir e chorar com muitas outras histórias construídas pelas crianças (ainda considero a todos como crianças, mesmo ao Gabriel, que casou com a Luanna e segue seu destino). Cada uma das histórias dos filhos é pessoal e intransferível, como a paternidade, mesmo à distância, mesmo em casamentos diferentes.

O Pedro caminha com seus novos tênis e eu agradeço a Deus por está aqui para ver isso. Espero viver muito mais para assistir e depois lembrar dessas pequenas conquistas que constroem o mundo. Como do choro da Jéssica que me conquistou há 12 anos, quando eu nem imaginava que tivesse coração para tanta vida.

03/04/2009

Não, você não sabe...

Sabe, pai? Não, você não sabe... Sua filha foi dormir chorando. Sabe por quê? Não, você não sabe. Não deve fazer a mínima idéia. Ela está desistindo de você. E isso dói. Dói para ela, é claro, porque você nem desconfia que isso esteja acontecendo.

Você não a vê há meses. Parecem anos para ela. Parecem séculos. E a cada dia que passa, a garotinha de olhos brilhantes desenvolve um olhar cansado, envelhecido, de quem já não tem mais paciência de esperar.

Mas você não vê, então, não sabe. Só pode ser esse o motivo de tanta indiferença. Porque, se soubesse, se percebesse o tamanho da dor que provoca, agiria diferente. Teria um pouquinho mais de consideração por ela.

Mas você não sabe, não percebe. E usa argumentos insustentáveis (até para uma criança) para explicar o inexplicável. Você não vem visitá-la e essa verdade adquire dimensões assustadoras.

Se você ainda estivesse longe... Mas os sonhos de abraçá-lo estão apenas a uma hora de viagem, talvez um pouco mais. Ela já compreendeu isso. E sabe que não há muitos motivos para justificar sua falta.

Você está longe e não sabe, mas ela já se sentiu culpada por desejar sua vinda. Chegou a ficar brava com ela mesma por desejar vê-lo. Pois se sentia malvada por não conseguir disfarçar a tristeza provocada pela sua ausência. Mas isso está virando passado.

O tempo passa e ela vê outros exemplos na escola, na vizinhança, até em casa. E faz comparações. Outros pais, mesmo separados, fazem muito mais do que você. E ela já percebeu que dinheiro e posses nada têm a ver com a questão.

A falta de dinheiro atrapalha? Claro que atrapalha. Mas se há empenho e amor, até a falta de dinheiro se apequena. Porém, você não vê, então, não percebe. A neblina dos seus problemas roubou a sua capacidade de enxergar.

Saiba que sua menininha cresce, vira moça, evolui. Logo, será adolescente e você não terá mais oportunidades para se fazer presente.

Tristemente, você ocupará uma posição nebulosa no passado dela. Será quase um estranho. Como se desejar o pai por perto fosse coisa de criança, um daqueles desejos mágicos dos tempos de infância.

Ainda há tempo. Mas você não sabe, você não vê...

25/03/2009

Paralenda

O rei manou me chamar
Pra casar com sua filha
Só de dote ele me dava
Europa, França e Bahia
Me lembrei do meu ranchinho
Da roça, do meu feijão
O rei mandou me chamar
Ó seu rei, não quero, não

(resgatada pelo interessante site http://www.jangadabrasil.com.br/)

22/03/2009

trava trava

"Tinha tanta tia tantã.Tinha tanta anta antiga.Tinha tanta anta que era tia.Tinha tanta tia que era anta." Curioso e apropriado trava línga do folclore.

18/03/2009

Luz, tragam a luz!

Senhor, iluminai os medíocres! Se não der para iluminar a todos, pelo menos arranje uma luzinha de emergência. Se for complicado mesmo assim, por favor, empreste um farolete. Vou brincar de teatro de sombras. Nesse meio tempo, abençoai o bom senso e nos livrai da idiotice, antes que seja tarde de mais, amém!

26/11/2008

E se o filho não nasce da gente?

Meus amigos, publiquei o texto abaixo há 10 anos. Mas ele ainda é tão atual. Trata de um assunto que me toca muito forte. Fala sobre os pais adotivos que não revelam aos filhos sua condição de filhos escolhidos. Não fazem por maldade. E por isso mesmo, escrevi a crônica que segue.

.........

Se você tem filho adotivo e ele não sabe disso, acho que você ainda não tem um filho. Desculpe, mas filhos só são filhos de verdade quando podem ser filhos na verdade. Não importa se adotivos ou não. Eles não podem ser filhos de mentirinha. Mesmo porque, esses baixinhos têm uma capacidade incrível de saber de coisas que nem a gente sabe direito.

Há estudos mostrando que as crianças têm registros de memória desde os tempos de útero das genitoras. Genitoras, sim, esse nome estranho que faz referência àquelas que geraram. Genitoras são diferentes de mães, aquelas que criam, acompanham e sofrem, torcem a favor e dão castigo, amam, choram e cometem erros e acertos.

Pois, lá dos tempos em que estavam nas barrigas daquelas que os geraram, os filhos adotivos trazem lembranças por vezes irreconhecíveis. Muito desse reconhecimento depende do conhecimento das verdades sobre suas origens.

Dessa forma, falo daqui, meio metido: filhos adotivos não podem passar por filhos biológicos de pais adotivos. Quer dizer, podem até ser enganados por um tempo, mas, vai chegar a hora da verdade e se ela faltar, um ciclo fundamental não será concluído. Filho adotivo que não sabe da condição da adoção, vai ter muito mais dificuldades para ser filho em sua plenitude. No fundo, acredito que vai sofrer com um vazio inexplicável.

Não entenda aí que filhos adotivos são melhores ou piores do que filhos biológicos. A condição de filhos se dá pela relação construída ao longo do tempo e não pela consangüinidade. A Tina, psicóloga amiga da minha família, diz que, se o parentesco pelo sangue fosse garantia de amor entre pais e filhos, não haveria abandono de filhos, ou de pais. Vivo repetindo isso.

Assim, volto ao princípio. Se você tem filho adotivo e ele não sabe disso, faça um esforço e encontre uma forma de entregar o mapa desse tesouro a ele. Conte a verdade. Não há maior prova de carinho. Vai mostrar, em definitivo, uma escolha que fez dele filho porque você tinha o amor que ninguém mais poderia dar.

06/11/2008

Cuidado com o MP3 da garotada!

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“Filho, baixa essa vitrola. Você vai acabar ficando surdo”.

Minha mãe ficava irritada quando ligávamos a Rádio-Vitrola Hi-Fi com o volume do som muito alto. Não tinha nada disso de estéreo, muito menos de surround sound. O máximo de tecnologia era o gravador Geloso, da Suely, minha irmã. O fone era um cacarequinho em plástico duro (acho que era braquelite) cor gelo, que mais parecia uma rolha de ouvido (era mono, é bom lembrar).

Bom, mas não é isso o que importa. Eu queria falar sobre tocar música em alto volume. Uma campanha lançada pela Sociedade Brasileira de Otologia faz um alerta muito importante. Os meninos já não incomodam tanto suas mães com barulhos ensurdecedores como nos meus tempos de vitrola. Mas estão ensurdecendo. Talvez até porque as mães já não gritem como antigamente.

Na raiz do problema estão os pequenos tocadores de MP3. De custo baixo e, por isso, acessíveis, eles ocupam parte do cotidiano dos jovens e adolescentes brasileiros. Mal utilizados, podem representar riscos à audição em proporções muito mais sérias do que os tocadores de long plays do passado.

Segundo informações da campanha da Sociedade Brasileira de Otologia, os tocadores MP3 podem alcançar intensidade sonora de até 120 decibéis, o que equivale ao barulho da turbina de avião ao decolar.

Minha mãe ficaria realmente irritada se eu ligasse a turbina de um avião na sala de casa, lá no Ipiranga, em São Paulo. Mas esses meninos usam fones ultra-potentes, que disfarçam o bombardeio dos putz-putz-putz barulhentos dos dias atuais.

O caso não é muito diferente dos jovens que têm iPODs, capazes de reproduzir sons com intensidade que varia de 100 a 115 decibéis, sendo que o nível sugerido pelos médicos é inferior a 60 decibéis.

Estudos desenvolvidos na Europa revelam que os jovens de 20 anos de idade, hoje, não percebem a perda de audição. Eles só vão experimentar as conseqüências dos abusos atuais quando tiverem cerca de 30 anos de idade. Aí será tarde.

Quer saber mais? Visite o site da campanha e divulgue. Acho que vale a pena.
http://www.saudeauditiva.org.br/

10 de novembro
Dia da Audição. E de abaixar o volume do mp3

Quer ver como era o gravador Geloso da minha irmã?
Clique no link abaixo. Ele mostra um aparelho igualzinho em gravação arquivada no Youtube.

http://www.youtube.com/watch?v=Cpq3HLtyOYE&NR=1