"Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores,
matam nosso cão,e
não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada."
Eduardo Alves da Costa - No caminho com Maiakovski
09/11/2009
30/10/2009
Eu e os artesanatos
Muita gente pergunta como consigo arranjar t
empo para fazer artesanato. A curiosidade é compreensível. Não é comum encontrar pessoas com atividades profissionais que absorvem, como a minha, e ainda têm tempo para seguir com a carreira de escritor, fazer palestras e produzir artesanato. Não sobra tempo para nada?
O tempo anda curto mesmo, fazendo ou não fazendo tudo o que faço. Meu trabalho oficial absorve a imensa maioria do dia, no escritório e fora dele. E até por conta disso, o potenciômetro que mede o estresse fica, às vezes, com o ponteiro lá em cima (ou lá embaixo, dependendo da leitura). O problema, ou a vantagem, é que as outras atividades funcionam como válvulas de escape; se a vida complica, conto com elas para esvaziar o tanque das amarguras.
É mais ou menos como se eu acumulasse combustível sempre que ficasse de saco cheio. Gasto a lenha acumulada (calma, não tem sentido figurado) com a escrita, as palestras e o artesanato. Entre outras coisas feitas artesanalmente estão pins de geladeira. Ultimamente, tenho me dedicado a produzir figurinhas do folclore brasileiro. Não é de hoje que a Cuca e o Saci têm minha preferência.
O inconsciente é irônico. A Cuca é uma adaptação brasileira da bruxa velha, a Coca que veio de Portugal nos tempos da colonização. Mulher velha e malvada (não porque velha), com cabeça de Jacaré e unhas de gavião. O Saci-Pererê é uma divindade menina, talvez um parente d’além mar do Trasgo português, que acabou sendo misturado com mitos indígenas e africanos. Ele apronta toda a sorte de traquinagens com todo mundo e (segundo a versão que eu prefiro), não o faz por maldade, faz de molecagem.
O meu Saci e a minha Cuca são do bem. E ajudam a espantar os males da estafa. Por isso, me pego a produzi-los nos momentos livres. Mas como fazer se o tempo livre é tão escassso? Tenho uma estratégia que funciona bem. Primeiro, crio várias versões da mesma personagem. Depois, escolho as versões mais interessantes. Em seguida, crio um molde de silicone e passo a reproduzi-los em escala.
O truque está em fazer dezenas de reproduções e deixá-las secando. Uma hora sobra tempo e eu passo a pintar as figurinhas uma a uma, com paciência de quem perdeu o ônibus e só vai ter nova condução no dia seguinte. Às vezes, consigo ficar pintando por horas. Outra tantas, não paro muito mais do que alguns minutos e, de tempinho em tempinho, vou montando o estoque.
A última fornada acabou saindo na capa do caderno Vale Viver, da editoria de Variedades do jornal Valeparaibano, aqui de São José dos Campos (SP). Foi uma homenagem à Festa do Saci e seus amigos, que começa nesta sexta, em São Luiz do Paraitinga, localizada às margens da rodovia que liga Taubaté a Ubatuba.
Neste sábado, 31 de outubro, comemora-se o Raloim caipira, porque esse é o Dia do Saci. Viva o Saci. Viva nóis! Viva Tudo! Viva o Chico Barrigudo!
Aliás, sugiro que vocês conheçam o site da entidade festeira, a SOSACI – Sociedade dos Observadores de Saci: http://www.sosaci.org/
E dá licença que eu vou sacizar. #saci
O tempo anda curto mesmo, fazendo ou não fazendo tudo o que faço. Meu trabalho oficial absorve a imensa maioria do dia, no escritório e fora dele. E até por conta disso, o potenciômetro que mede o estresse fica, às vezes, com o ponteiro lá em cima (ou lá embaixo, dependendo da leitura). O problema, ou a vantagem, é que as outras atividades funcionam como válvulas de escape; se a vida complica, conto com elas para esvaziar o tanque das amarguras.
É mais ou menos como se eu acumulasse combustível sempre que ficasse de saco cheio. Gasto a lenha acumulada (calma, não tem sentido figurado) com a escrita, as palestras e o artesanato. Entre outras coisas feitas artesanalmente estão pins de geladeira. Ultimamente, tenho me dedicado a produzir figurinhas do folclore brasileiro. Não é de hoje que a Cuca e o Saci têm minha preferência.
O inconsciente é irônico. A Cuca é uma adaptação brasileira da bruxa velha, a Coca que veio de Portugal nos tempos da colonização. Mulher velha e malvada (não porque velha), com cabeça de Jacaré e unhas de gavião. O Saci-Pererê é uma divindade menina, talvez um parente d’além mar do Trasgo português, que acabou sendo misturado com mitos indígenas e africanos. Ele apronta toda a sorte de traquinagens com todo mundo e (segundo a versão que eu prefiro), não o faz por maldade, faz de molecagem.
O meu Saci e a minha Cuca são do bem. E ajudam a espantar os males da estafa. Por isso, me pego a produzi-los nos momentos livres. Mas como fazer se o tempo livre é tão escassso? Tenho uma estratégia que funciona bem. Primeiro, crio várias versões da mesma personagem. Depois, escolho as versões mais interessantes. Em seguida, crio um molde de silicone e passo a reproduzi-los em escala.
O truque está em fazer dezenas de reproduções e deixá-las secando. Uma hora sobra tempo e eu passo a pintar as figurinhas uma a uma, com paciência de quem perdeu o ônibus e só vai ter nova condução no dia seguinte. Às vezes, consigo ficar pintando por horas. Outra tantas, não paro muito mais do que alguns minutos e, de tempinho em tempinho, vou montando o estoque.
A última fornada acabou saindo na capa do caderno Vale Viver, da editoria de Variedades do jornal Valeparaibano, aqui de São José dos Campos (SP). Foi uma homenagem à Festa do Saci e seus amigos, que começa nesta sexta, em São Luiz do Paraitinga, localizada às margens da rodovia que liga Taubaté a Ubatuba.
Neste sábado, 31 de outubro, comemora-se o Raloim caipira, porque esse é o Dia do Saci. Viva o Saci. Viva nóis! Viva Tudo! Viva o Chico Barrigudo!
Aliás, sugiro que vocês conheçam o site da entidade festeira, a SOSACI – Sociedade dos Observadores de Saci: http://www.sosaci.org/
E dá licença que eu vou sacizar. #saci
24/10/2009
VII Festa do Saci e seus amigos
Essa festa promete. De 30 de outubro a 01 de novembro, a cidade de São Luiz do Paraitinga (SP) promove a VII Festa do Saci e seus Amigos. O acpontecimento é uma iniciativa da SOSACI – Sociedade dos Observadores de Saci, e da Prefeitura. Sempre é bom lembrar: 31 de Outubro é Dia do Saci e seus Amigos.
A Festa começa dia 30, às 19 horas, com apresentação da Famig – Fanfarra Monsenhor Ignácio Gióia, na praça, seguida do passeio saciclístico (19:10), lançamento do Anuário da Mitologia Brasílica, de Mouzar e Ohi (19:30) e de seminário sobre a história da música caipira e a via da cultura (20:00). Haverá, ainda, os seguintes shows: violeiros Louro e Lucas, de São Luiz (20:00); percussão com Dinho Nascimento em “Ser Hum Mano” (21:30), e Grupo de Serestas, pelas ruas do centro (23:00).
Saiba mais da programação no site da Sosaci: http://www.sosaci.org/
16/10/2009
O gordinho e a menina de rosa
Deixei muitos pedaços por aí. Uso como cola as lembranças que voltam. Com elas, reconstituo minhas andanças. É assim, por exemplo, quando ouço as músicas lentas da infância. Imediatamente, fico sem jeito, meio ridículo. Volto a ser aquele menino que ia ganhar coragem para tirar a menina de vestido rosa para dançar, mas que nunca tirou. Tentava, mas não conseguia. Puxa, eu juro, tentava mesmo!
Gastei muitos bailes no Clube Atlético Ypiranga para criar coragem, levantar, seguir, andar determinado em direção à menina de vestido rosa... Mas, ali, na hora da verdade, desviava. Eu sempre desviava. Via um ET no salão, um morcego verde na cortina, uma minhoca jogadora de basquete... e fugia.
Não sei se ela notava. Eu queria tirá-la para dançar. Queria, sim! Só não conseguia. Jamais consegui. Acho que ela também não conseguiu, porque não me lembro de tê-la visto dançando com ninguém. Estava lá, no mesmo lugar, com o mesmo vestido, sentada no canto, esperando pelo bailarino que não chegou. Era minha parceira, havia de ser, meu Deus, sempre foi. Minha parceira que não foi.
Cresci, mudei do bairro e nunca mais vi a menina de rosa. Até hoje tenho altos grilos para dançar. Apesar dos whiskies quebra-gelo e das vezes em que balancei ao som dos bailes da vida, nunca pude dançar inteiramente. Creio que meu pedaço dançarino ainda vaga lá pelo salão do clube, feito alma penada, vacilante, seguindo em direção à cadeira que já não tem a menina de vestido rosa.
Não sei se outras pessoas já experimentaram isso. Ao ouvir músicas dos tempos das domingueiras, tenho a estranha sensação de visitar um museu. Eu as sinto como sendo de um passado remoto. Feito as peças que pertenceram a alguém de dois ou três séculos atrás. As músicas lentas da meninice me fazem viajar, como se houvesse dançado com a menina de rosa, mas nunca dancei.
Porventura, se você for dessa época das domingueiras do Ypiranga e conhecer aquela que já foi a menina do vestido cor-de-rosa, por favor, não fale de meu medo. Fale apenas que o par estava lá, sim, e a admirava, encantado. Diga que ele quase chegou, mas perdeu para o ímpar das circunstâncias. Fale que o menino gordinho do outro lado do salão dançava com ela de coração. Coração bailarino que, ainda hoje, ensaia passos elaborados ao som dos Bee Gees.
(esta é a crônica-título do meu livro, lançado na Bienal do Livro de São Paulo, em 2004; resolvi publicá-la em homenagem aos alunos da Univap que assistiram à minha palestra, esta semana)
Gastei muitos bailes no Clube Atlético Ypiranga para criar coragem, levantar, seguir, andar determinado em direção à menina de vestido rosa... Mas, ali, na hora da verdade, desviava. Eu sempre desviava. Via um ET no salão, um morcego verde na cortina, uma minhoca jogadora de basquete... e fugia.
Não sei se ela notava. Eu queria tirá-la para dançar. Queria, sim! Só não conseguia. Jamais consegui. Acho que ela também não conseguiu, porque não me lembro de tê-la visto dançando com ninguém. Estava lá, no mesmo lugar, com o mesmo vestido, sentada no canto, esperando pelo bailarino que não chegou. Era minha parceira, havia de ser, meu Deus, sempre foi. Minha parceira que não foi.
Cresci, mudei do bairro e nunca mais vi a menina de rosa. Até hoje tenho altos grilos para dançar. Apesar dos whiskies quebra-gelo e das vezes em que balancei ao som dos bailes da vida, nunca pude dançar inteiramente. Creio que meu pedaço dançarino ainda vaga lá pelo salão do clube, feito alma penada, vacilante, seguindo em direção à cadeira que já não tem a menina de vestido rosa.
Não sei se outras pessoas já experimentaram isso. Ao ouvir músicas dos tempos das domingueiras, tenho a estranha sensação de visitar um museu. Eu as sinto como sendo de um passado remoto. Feito as peças que pertenceram a alguém de dois ou três séculos atrás. As músicas lentas da meninice me fazem viajar, como se houvesse dançado com a menina de rosa, mas nunca dancei.
Porventura, se você for dessa época das domingueiras do Ypiranga e conhecer aquela que já foi a menina do vestido cor-de-rosa, por favor, não fale de meu medo. Fale apenas que o par estava lá, sim, e a admirava, encantado. Diga que ele quase chegou, mas perdeu para o ímpar das circunstâncias. Fale que o menino gordinho do outro lado do salão dançava com ela de coração. Coração bailarino que, ainda hoje, ensaia passos elaborados ao som dos Bee Gees.
(esta é a crônica-título do meu livro, lançado na Bienal do Livro de São Paulo, em 2004; resolvi publicá-la em homenagem aos alunos da Univap que assistiram à minha palestra, esta semana)
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04/10/2009
60 Anos de Rep. Popular da China

Belíssima foto publicada no Big Picture do Boston Globe - http://www.boston.com/bigpicture/2009/10/china_celebrates_60_years.html
30/07/2009
Perdendo heróis
(uma antiga crônica minha que vale a pena reler)
Perdemos muitas coisas ao longo da vida: amigos, dinheiro, amados e bugigangas. O tempo passa e percebemos que a dinâmica implacável das derrotas aumenta em ritmo e intensidade. Perdem-se os dentes, a memória, o ânimo e alguns sonhos. Perdem-se amores para sempre. Alguns se vão por esclerose. Outros seguem seus caminhos por conta dos erros de cálculo.
Vão-se os amigos, as amadas e as amarras. E nem o vento volta para nos empurrar mar adentro. Partem os vizinhos, os colegas de trabalho e os próprios empregos. Morre muita gente pelo caminho. Uns morrem de burrice. Outros morrem de velhice. Vários cederam às tentações e decepcionaram. Morreram também.
O sítio morre para garantir a poupança. A casa cede ao apartamento pelo desperdício de espaço. O carro falha, o sapato fura e o pijama fica. Pára o relógio mais querido, some o brinquedo que seria para sempre, fica para trás alguma coisa importante da qual agora eu já nem lembro.
O destino é infiel e decidido. Mesmo que eu acredite que nada está decidido. Fui criado para lutar e fazer o futuro que pudesse conquistar. Apesar disso, assisto espantado aos lances definitivos do acaso.
E nesse mundo de perdas, a pior de todas é a da sensação de invulnerabilidade. Depois de certa idade, morrem os pais, os tios, os padrinhos. Parece que combinam. Chega um momento e morrem todos aqueles que nos deram tudo o que somos (ou boa parte das perdas e dos ganhos).
Aos poucos percebemos que até os nossos heróis acabam sendo abatidos. E é difícil aceitar que não há mais quem nos proteja da vida. É quando, mesmo já adultos, marmanjos, perdemos de vez o que podia sobreviver da meninice protegida. Ou viramos nós mesmos os heróis de nossos filhos, sobrinhos e afilhados, ou perdemos todos e tudo, a começar pela esperança.
É triste perceber que nascemos dessas perdas. Renascemos, na verdade. Recomeçamos de onde estávamos para seguir além do possível. Até que o tempo, a burrice ou as decepções nos matem. E ganhemos o status de buracos nas vidas daqueles que nos amam (ou nos amaram).
Nos últimos tempos tenho perdido muita gente querida. E não gosto de acreditar no inevitável. Queria muito poder voltar a ser o cowboy de mentirinha que montava no cavalo-goiabeira do jardim. Arremessar mangas na cachoeira como se fossem granadas de uma guerra imaginária (e eu sempre vencia). E exercitar meus super poderes de brincadeira enquanto meus velhos heróis batalhavam de verdade para que eu pudesse brincar.
Mas até os meus heróis acabaram perdendo. E como se não soubesse que isso fosse acontecer, fico muito triste. Talvez não quisesse acreditar. Pois os próximos a perder serão meus filhos, sobrinhos e afilhados, que escolheram a mim, pobrezinhos, para ser o super herói que vai morrer um dia. E eu não quero que eles cresçam, porque vão perder o que venho perdendo nestes últimos tempos.
Mas nós, humanos, somos feitos daquilo que perdemos. E nada mais podemos fazer que não reconstruir em nós mesmos aqueles que nos fizeram vencer. Até para sabermos perdê-los. Até para saber que um dia também seremos perdidos.
Perdemos muitas coisas ao longo da vida: amigos, dinheiro, amados e bugigangas. O tempo passa e percebemos que a dinâmica implacável das derrotas aumenta em ritmo e intensidade. Perdem-se os dentes, a memória, o ânimo e alguns sonhos. Perdem-se amores para sempre. Alguns se vão por esclerose. Outros seguem seus caminhos por conta dos erros de cálculo.
Vão-se os amigos, as amadas e as amarras. E nem o vento volta para nos empurrar mar adentro. Partem os vizinhos, os colegas de trabalho e os próprios empregos. Morre muita gente pelo caminho. Uns morrem de burrice. Outros morrem de velhice. Vários cederam às tentações e decepcionaram. Morreram também.
O sítio morre para garantir a poupança. A casa cede ao apartamento pelo desperdício de espaço. O carro falha, o sapato fura e o pijama fica. Pára o relógio mais querido, some o brinquedo que seria para sempre, fica para trás alguma coisa importante da qual agora eu já nem lembro.
O destino é infiel e decidido. Mesmo que eu acredite que nada está decidido. Fui criado para lutar e fazer o futuro que pudesse conquistar. Apesar disso, assisto espantado aos lances definitivos do acaso.
E nesse mundo de perdas, a pior de todas é a da sensação de invulnerabilidade. Depois de certa idade, morrem os pais, os tios, os padrinhos. Parece que combinam. Chega um momento e morrem todos aqueles que nos deram tudo o que somos (ou boa parte das perdas e dos ganhos).
Aos poucos percebemos que até os nossos heróis acabam sendo abatidos. E é difícil aceitar que não há mais quem nos proteja da vida. É quando, mesmo já adultos, marmanjos, perdemos de vez o que podia sobreviver da meninice protegida. Ou viramos nós mesmos os heróis de nossos filhos, sobrinhos e afilhados, ou perdemos todos e tudo, a começar pela esperança.
É triste perceber que nascemos dessas perdas. Renascemos, na verdade. Recomeçamos de onde estávamos para seguir além do possível. Até que o tempo, a burrice ou as decepções nos matem. E ganhemos o status de buracos nas vidas daqueles que nos amam (ou nos amaram).
Nos últimos tempos tenho perdido muita gente querida. E não gosto de acreditar no inevitável. Queria muito poder voltar a ser o cowboy de mentirinha que montava no cavalo-goiabeira do jardim. Arremessar mangas na cachoeira como se fossem granadas de uma guerra imaginária (e eu sempre vencia). E exercitar meus super poderes de brincadeira enquanto meus velhos heróis batalhavam de verdade para que eu pudesse brincar.
Mas até os meus heróis acabaram perdendo. E como se não soubesse que isso fosse acontecer, fico muito triste. Talvez não quisesse acreditar. Pois os próximos a perder serão meus filhos, sobrinhos e afilhados, que escolheram a mim, pobrezinhos, para ser o super herói que vai morrer um dia. E eu não quero que eles cresçam, porque vão perder o que venho perdendo nestes últimos tempos.
Mas nós, humanos, somos feitos daquilo que perdemos. E nada mais podemos fazer que não reconstruir em nós mesmos aqueles que nos fizeram vencer. Até para sabermos perdê-los. Até para saber que um dia também seremos perdidos.
18/04/2009
O caminhar e o choro

O Pedro usou esta semana seu primeiro par de tênis. Adorou e não quis mais tirar os calçados. É engraçado acompanhar esses detalhes da evolução dos filhos. São momentos que a gente guarda para sempre.
O pequeno Pedro já é dono de três ou quatro pares de sandálias de borracha (acho que chamam papetes, aquelas de prender com elástico, no calcanhar). Agora, com os tênis, ele inicia literalmente uma nova caminhada pelo mundo.
Esse momento do Pedro me lembrou da minha filha Jéssica, quando a conheci (e me apaixonei) há 12 anos. Foi com sandalinhas brancas e vestido creme que ela chorou pela primeira vez no meu colo, ainda sem intimidade, balbuciando uma ou outra palavrinha difícil de entender. Era março de 1997 e eu começava uma nova caminhada pelo mundo. Acho que usava tênis, mas não tenho certeza.
Naquele dia, fui ao Interior de São Paulo conhecer meus filhos: o João Paulo, que tinha seis anos, a Mônica, que tinha quatro, e a pequena Jéssica, de quase dois. A princípio, achei um absurdo trazê-los todos juntos para casa. Não tinha dinheiro, nem perspectivas de melhorar de vida. Mas o choro da pequenina encontrou dentro de mim os caminhos do convencimento. Foi o jeito da Jéssica se instalar em meu coração.
Nunca é demais lembrar: trazê-los para minha vida foi um desafio que não assumi sozinho. Uma decisão dessas é difícil de tomar sozinho. Foi uma ação que resultou de um projeto desenhado e executado em conjunto com a Regina, com quem era casado na época. Gabriel, meu filho mais velho, que tinha 16 anos de idade, também participou das discussões. Mas a decisão de adotá-los foi do então casal.
Depois desses 12 anos, o Pedro, agora, é o novo pequenino da minha vida. Hoje, sou casado com a Viviane e Pepeu é o sexto filho em uma história que tem dois biológicos, três adotivos e uma enteada (que é filha, também). Tudo isso em três casamentos. E por uma curiosa coincidência, os tênis conquistam os pés do pequenino Pedro no mesmo mês em que se completam 12 anos da entrada de três dos meus filhos em minha vida.
A Jéssica já chorou muitas outras vezes desde que conquistou meu coração. Em alguns casos, chorei junto, amparando e abraçando. Em outros, fui o motivo do choro, seja por um não, uma palmada ou um castigo qualquer. Houve casos em que ela chorou e não tive como impedir, mesmo estando por perto. Tantos outros choros não aconteceram porque eu pude agir. Ambos já choramos em separado aqui ou ali (às vezes pelo mesmo motivo) e porque a vida é assim mesmo: leva a gente chorar e não há o que se possa fazer.
Vendo o Pedro caminhar aos tropeções com seu tênis novo, volto a ficar emocionado e disfarço o choro de pai admirado, feliz por testemunhar mais essa conquista da vida. E celebro a lembrança das tantas conquistas que já tive com todos os filhos, cada um a seu tempo, cada um a seu modo.
Ainda vou rir e chorar com muitas outras histórias construídas pelas crianças (ainda considero a todos como crianças, mesmo ao Gabriel, que casou com a Luanna e segue seu destino). Cada uma das histórias dos filhos é pessoal e intransferível, como a paternidade, mesmo à distância, mesmo em casamentos diferentes.
O Pedro caminha com seus novos tênis e eu agradeço a Deus por está aqui para ver isso. Espero viver muito mais para assistir e depois lembrar dessas pequenas conquistas que constroem o mundo. Como do choro da Jéssica que me conquistou há 12 anos, quando eu nem imaginava que tivesse coração para tanta vida.
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