A vontade é de desabafar. Mas eu já aprendi: não se faz isso em público. Ninguém desabafa em uma crônica que vai ser lida por milhares de pessoas. Mas eu preciso desabafar. Estou sem espaço para manobras.
- Poesia, vá buscar a poesia!, reclama meu bom senso.
Mais difícil do que desabafar em público, é pensar em poesia neste momento. Pareceria provocação poetizar em meio a tantas indefinições.
Além disso, azedado como estou, não enxergo poesia no congestionamento.
Sigo para uma reunião de trabalho e acontece algum problema com alguém em algum lugar e o trânsito enlouquece. Isso é São Paulo.
Moro no interior e fico feliz em constatar na prática que não me acostumo mais às loucuras da capital. Quem já foi de São Paulo e mudou para uma cidade menos ensandecida (e gostou) sabe do estou falando.
Aprendi a desaprender esse amor doentio pelos grandes aglomerados urbanos. Mesmo assim, gosto de pessoas que amam cidades assim. Meus filhos, por exemplo, os da Capital, adoram continuar enfrentando filas, congestionamentos e manias. Amo meus filhos paulistetes, apesar dos congestionamentos.
No trânsito.
O motorista do carrão ao meu lado abaixa o vidro revestido com aquela película escura e cospe no asfalto. Em seguida, levanta o vidro e volta a se encastelar na invisibilidade do carro de janelas escuras. Enxames de motociclistas passam entre os carros, zumbindo suas buzininhas irritantes e sua agressividade guerrilheira. E a moça do carro detrás examina o rosto pelo retrovisor.
- Amiguinha, preste atenção ao volante e não bata na traseira deste carro que dirijo neste anda-e-para que parece eterno.
Queria me dar ao luxo de delirar encontrando outra ocupação profissional que não a atual. Não é impossível, mas parece tão despropositado quanto pensar em poesia em meio a essa crise existencial e a este congestionamento.
Poesia
. Lembro de uma época em que resolvi ouvir poesia no CD do carro. Estava em uma fase melhor que a atual. Escolhi ouvir Augusto dos Anjos na belíssima interpretação do excelente ator Othon Bastos. Quase surtei.
Nesta fase da história em que agregar valor é sinônimo de muitas coisas e de nada ao mesmo tempo, penso no medo que já senti desses discursos circulares. Não que tenha perdido o medo dos oradores medíocres, pois ainda me irrito com os discursos fabricados e com as frases feitas dos pensadores de época. Mas perdi o medo da hipocrisia. Os hipócritas são doentes contagiosos, porém, dependem da boa vontade de muitos para as suas epidemias.
Prefiro o enfarto ao enfado, o mau cheiro ao excesso de perfume, o silêncio à fábula discursiva.
Mas eu falava da vontade de desabafar e não vejo o porque de fazer isso em público.
Maurício Cintrão
(publicado pelo jornal O Vale, caderno Viver& em 17/09/11)
17/09/2011
28/08/2011
Alegria do estudante
O Pedro conta nos dedos os dias que faltam para o reinício das aulas. Engraçado, porque eu não gostava da escola nos tempos de criança. Até estranho essa alegria do meu filho caçula. Eu chorava e não queria ir à aula. Ele vibra e gosta dos mínimos detalhes.
Por conta das nossas dificuldades logísticas dos últimos meses, Pepeu passou a ir à aula de perua. A "Tia Gisele" passa em casa todos os dias por volta das 12h20 e lá vai meu pequenino todo orgulhoso.
Fiquei em casa um bom tempo cuidando da família e ainda hoje me espanto ao lembrar da animação do pequerrucho. São tempos diferentes e eu preciso me acostumar a eles. As aulas não seguem mais aquela liturgia do sofrimento.
Essa cultura do respeito pelo sofrimento ainda sobrevive em algumas empresas, instituições, partidos políticos, universidades e até em algumas escolas. Sei de histórias de jovens submetidos a regimes educacionais severos, verdadeiras fábricas de idiotas letrados.
Mas não é isso o que tem acontecido com o meu filho. Ele gosta de ir à aula. E não é só porque tem amiguinhos e amiguinhas para brincar. Ele gostas das "tarefinhas". Quando traz a pasta plástica vermelha das lições de casa, chega mais feliz ainda.
- Pai, hoje tem tarefinha!
Diversão.
Nas semanas em que estive fazendo as vezes de pai e mãe lá em casa, pude acompanhar de perto esses comportamentos divertidos. E experimentei um misto de espanto e tristeza, porque, no fundo, não tive isso na infância.
Na Escola Álvaro de Carvalho e no São Francisco Xavier dos meus tempos de menino eu era triste, amedrontado. Estudar era sofrer. E sofrimento chamava aula.
Olhando através da neblina de quem tenta enxergar o passado, sinto que essa sensação não era uma coisa só minha.
- Pai, eu tô com saudade da Tia Nathália, disse o Pedro, outro dia, referindo-se à sua professora.
E eu fiquei emocionado. Tenho saudades da Dona Carmen do meu pré-primário, muito menos porque as aulas eram legais, mais porque ela tinha o olhar solidário de quem entendia de tristeza. Isso, acho que ela era triste como eu.
Ah, sei lá! Talvez eu esteja carregando nas cores, aqui, há dezenas de anos de distância (nossa, isso faz quase 50 anos!). Mas não custa exercitar a memória e o coração nesse caminho de volta, puxado pelo Pedro, esse pequeno e feliz estudante.
As pessoas às vezes me perguntam porque eu escolhi ter tantos filhos. Eu acho que um dos motivos é esse: eles me ajudam a lembrar. E é nesse lembrar que eu reconstruo a mim mesmo.
(publicada pelo jornal O Vale no dia 27.08.2011)
Por conta das nossas dificuldades logísticas dos últimos meses, Pepeu passou a ir à aula de perua. A "Tia Gisele" passa em casa todos os dias por volta das 12h20 e lá vai meu pequenino todo orgulhoso.
Fiquei em casa um bom tempo cuidando da família e ainda hoje me espanto ao lembrar da animação do pequerrucho. São tempos diferentes e eu preciso me acostumar a eles. As aulas não seguem mais aquela liturgia do sofrimento.
Essa cultura do respeito pelo sofrimento ainda sobrevive em algumas empresas, instituições, partidos políticos, universidades e até em algumas escolas. Sei de histórias de jovens submetidos a regimes educacionais severos, verdadeiras fábricas de idiotas letrados.
Mas não é isso o que tem acontecido com o meu filho. Ele gosta de ir à aula. E não é só porque tem amiguinhos e amiguinhas para brincar. Ele gostas das "tarefinhas". Quando traz a pasta plástica vermelha das lições de casa, chega mais feliz ainda.
- Pai, hoje tem tarefinha!
Diversão.
Nas semanas em que estive fazendo as vezes de pai e mãe lá em casa, pude acompanhar de perto esses comportamentos divertidos. E experimentei um misto de espanto e tristeza, porque, no fundo, não tive isso na infância.
Na Escola Álvaro de Carvalho e no São Francisco Xavier dos meus tempos de menino eu era triste, amedrontado. Estudar era sofrer. E sofrimento chamava aula.
Olhando através da neblina de quem tenta enxergar o passado, sinto que essa sensação não era uma coisa só minha.
- Pai, eu tô com saudade da Tia Nathália, disse o Pedro, outro dia, referindo-se à sua professora.
E eu fiquei emocionado. Tenho saudades da Dona Carmen do meu pré-primário, muito menos porque as aulas eram legais, mais porque ela tinha o olhar solidário de quem entendia de tristeza. Isso, acho que ela era triste como eu.
Ah, sei lá! Talvez eu esteja carregando nas cores, aqui, há dezenas de anos de distância (nossa, isso faz quase 50 anos!). Mas não custa exercitar a memória e o coração nesse caminho de volta, puxado pelo Pedro, esse pequeno e feliz estudante.
As pessoas às vezes me perguntam porque eu escolhi ter tantos filhos. Eu acho que um dos motivos é esse: eles me ajudam a lembrar. E é nesse lembrar que eu reconstruo a mim mesmo.
(publicada pelo jornal O Vale no dia 27.08.2011)
30/07/2011
Um disco no chão
O disco estava ali, caído no chão do estacionamento do hospital. Pude vê-lo porque sua superfície prateada refletiu a luz dos faróis do meu carro. Seria um CD ou um DVD? Momentos antes, um homem se despedia de uma criança naquele local. A mulher que estava ao volante do carro falava ao pequeno: dá tchau. Será que o disco caiu do carro?
Tive a tentação de parar e pegar o disco. Mas achei que seria invadir um momento íntimo de despedida da família. Quem seria o homem? Um médico, um paciente? O disco seria dele, do menino, da mulher, de um vizinho... Poderia ser um disco com informações digitalizadas de exames médicos.
Um pedaço da história daqueles três talvez pudesse ser conhecida por meio do pequeno disco prateado. Que músicas estariam ali a permitir lembranças, sonhos, outros mundos... Um filme, quem sabe, que marcou um passeio, uma noite fria ou uma tarde divertida com pipoca e refrigerante. Fotos, o disco poderia ter fotos digitalizadas e guardadas. Ou seria uma tomografia?
De fato, mesmo, só sei que era um disco redondo como as minhas dívidas circulares, que sempre voltam, feito tempestades. Um disco a me fazer distrair a preocupação com a Viviane, minha mulher, deitada no quarto 13 do ViValle, hospital que a recebeu e aconchegou por longas duas semanas. Hoje, à distância, com ela aqui em casa, sei que se recupera. Mas naquela noite, eu tinha muitos temores.
Medos reais como o disco caído no chão do estacionamento. Delirantes como as suposições sobre o que poderia conter aquele CD os DVD. Discos, aliás, são problemas da Viviane. Discos desgastados da coluna lombar. Enigmáticos L5 e S1, que tiram o humor e a alegria da minha companheira-menina, e a derrubam na cama sob fortes medicações.
Penso nos vários CDs e DVDs que estão em casa, com músicas, filmes, fotos e tantos arquivos. Discos distribuídos em latas, caixas, pacotes e gavetas. Todos prateados, porque a memória dos tempos de hoje tem fixação no prata. Apesar do pendrives, os CDs ainda guardam as lembranças da maioria.
O que será que aquela família perdeu no disco prateado que eu poderia ter pego e entregue na recepção, mas não o fiz porque não queria invadir a privacidade daquelas pessoas? Na manhã seguinte, o disco não estava mais lá e nenhum vestígio dele. Alguém o pegou. Será que o homem voltou para resgatá-lo ou alguma boa alma foi mais solidária do que eu?
Vai ver, algum abelhudo achou o CD ou DVD e foi xeretar a vida alheia. Eu poderia ter protegido as memórias, os sons, as imagens ou os exames daquela família. Bastava ter salvo o disco prateado que brilhou à luz dos faróis do meu carro naquela noite. Mas estava muito frágil para proteger quem quer que fosse. Eu tinha que me concentrar na recuperação da minha mulher.
Voltei para casa e dormi de mãos dadas com o Pedro, meu filho caçula
Maurício Cintrão
(publicado em 30/07/11 pelo jornal O Vale)
Tive a tentação de parar e pegar o disco. Mas achei que seria invadir um momento íntimo de despedida da família. Quem seria o homem? Um médico, um paciente? O disco seria dele, do menino, da mulher, de um vizinho... Poderia ser um disco com informações digitalizadas de exames médicos.
Um pedaço da história daqueles três talvez pudesse ser conhecida por meio do pequeno disco prateado. Que músicas estariam ali a permitir lembranças, sonhos, outros mundos... Um filme, quem sabe, que marcou um passeio, uma noite fria ou uma tarde divertida com pipoca e refrigerante. Fotos, o disco poderia ter fotos digitalizadas e guardadas. Ou seria uma tomografia?
De fato, mesmo, só sei que era um disco redondo como as minhas dívidas circulares, que sempre voltam, feito tempestades. Um disco a me fazer distrair a preocupação com a Viviane, minha mulher, deitada no quarto 13 do ViValle, hospital que a recebeu e aconchegou por longas duas semanas. Hoje, à distância, com ela aqui em casa, sei que se recupera. Mas naquela noite, eu tinha muitos temores.
Medos reais como o disco caído no chão do estacionamento. Delirantes como as suposições sobre o que poderia conter aquele CD os DVD. Discos, aliás, são problemas da Viviane. Discos desgastados da coluna lombar. Enigmáticos L5 e S1, que tiram o humor e a alegria da minha companheira-menina, e a derrubam na cama sob fortes medicações.
Penso nos vários CDs e DVDs que estão em casa, com músicas, filmes, fotos e tantos arquivos. Discos distribuídos em latas, caixas, pacotes e gavetas. Todos prateados, porque a memória dos tempos de hoje tem fixação no prata. Apesar do pendrives, os CDs ainda guardam as lembranças da maioria.
O que será que aquela família perdeu no disco prateado que eu poderia ter pego e entregue na recepção, mas não o fiz porque não queria invadir a privacidade daquelas pessoas? Na manhã seguinte, o disco não estava mais lá e nenhum vestígio dele. Alguém o pegou. Será que o homem voltou para resgatá-lo ou alguma boa alma foi mais solidária do que eu?
Vai ver, algum abelhudo achou o CD ou DVD e foi xeretar a vida alheia. Eu poderia ter protegido as memórias, os sons, as imagens ou os exames daquela família. Bastava ter salvo o disco prateado que brilhou à luz dos faróis do meu carro naquela noite. Mas estava muito frágil para proteger quem quer que fosse. Eu tinha que me concentrar na recuperação da minha mulher.
Voltei para casa e dormi de mãos dadas com o Pedro, meu filho caçula
Maurício Cintrão
(publicado em 30/07/11 pelo jornal O Vale)
06/05/2011
Alarmes do coração*
“Chove chuva” ainda era cantada nos encontros de samba de apartamento e entusiasmava muitos jovens. Foi inspirado pelos primórdios do sambalanço, portanto, que aprendi a tocar timba durante as férias de verão. Aliás, aprendi sem a timba, porque não tínhamos o instrumento em casa (lembre-se, não havia percussionista na família).
“Na falta de tu, vai tu mesmo”, dizia a vovó. Para “timbar”, eu improvisava uma estranha combinação de assento de cadeira de cozinha como “pele” e uma escova de cabelo como a vassourinha de bateria. O primo, alguns anos mais velho, explicou com o didatismo de uma manual de trator: “você faz assim com essa mão e assado com aquela”. E me deixou a pentear e espalmar o assento da cadeira enquanto todo mundo ia jogar bola nos finais de tarde. Assim virei o goleiro, quero dizer, percussionista da família.
É evidente que ninguém se submete a um sacrifício desses se não vê vantagem, ainda mais na adolescência. E o interesse estava na possibilidade de acompanhar o primo em saraus musicais pelas casas de amigas, namoradas e pretendentes, bem mais velhas e interessantes do que minhas coleguinhas de escola. Funcionou. Namorei muito como goleiro-timba. Fiquei mais próximo do primo, com quem já tinha afinidades (apesar da eventual truculência daqueles tempos) e de quem fui aluno e com quem aprendi muita coisa para lá do pentagrama.
Pieguismo à parte, acho que aí está a base das minhas reflexões sobre o curso. Por isso escolhi a expressão como título deste texto de reflexão. Os ensinamentos suaves e firmes da Professora Eugênia dispararam meus alarmes afetivos para a retomada dessa comunicação com o Cosmo que eu já conhecia de esbarrão, mas deixava guardada no sótão da memória.
Para compreender música e os folguedos populares é preciso aceitar essa magia que estabelece contato com as energias que desconhecemos, mas que mexem com todos nós. Porque cultura é, como bem definiu Weber, uma teia de significados, pública, visível, audível, vibrável, que serve de referência, identificação e ponte de entendimento entre as pessoas, desde que dividam o mesmo repertório.
A base do cantar e tocar no universo da cultura popular brasileira está na tradição e na ancestralidade de sobreviventes da diáspora africana e do desterro indígena. O que para muitos de nós é mero baticumbum dos espetáculos coreográficos, para outros é releitura de manifestações religiosas transformadas pela necessidade, pelo passar dos tempos ou mesmo pela hibridação provocada por diálogos entre manifestações culturais distintas. Assim, o místico não está despegado da realidade quando se trata de danças e músicas de inspiração popular.
Na abertura de seu livro “O que é folclore”, Carlos Rodrigues Brandão, citou uma fala de um dançador de congo de Machado, no interior de Minas Gerais, muito apropriada a esta altura das reflexões.
“Isso o povo daqui faz por uma devoção. É uma devoção que a gente tem com o santo, e por isso canta e dança conforme fez agora. Agora, tem gente que aparece que chama isso de folclore” (4) .
Essa talvez tenha sido a maior de todas as razões da ambivalência no trabalho de Mário de Andrade, meio intelectual racionalista, meio bruxo “pesquisador-farejador” (como disse certa vez o Maestro Villa-Lobos). Andrade buscou dividir entre o racional e o incomensurável suas andanças de turista aprendiz por esse Brasil tão rico e fascinante. “Êh coisas de minha terra, passados e formas de agora/Êh ritmos de síncopa e cheiros lentos de sertão/Varando contracorrente o mato impenetrável do meu ser...” (5).
Como bem definiu CAVALCANTI, 2004, “De seus primórdios até nossos dias, os estudos de folclore trazem embutida a notável capacidade de provocar entusiasmo, e mesmo encantamento” (6).
Encantamento trazido para a sala de aula pela pequenina professora Eugênia, que adquire dimensões monumentais quando se coloca entre uma alfaia e o universo, ensinando os rudimentos da percussão compassada que permite a conversa com o invisível.
Devo confessar que, bem diferente de meu primo-mandão daqueles tempos de menino, a professora tirou de mim e de todos nós o máximo de musicalidade possível com delicadeza, paciência e um gestual próprio, coreográfico, bailarino.
E tocamos alfaias, caixas, pandeiros, ganzás, sete flechas e tamborins, com um emaranhado de contatos principiantes com algumas das dimensões do eterno, reafirmando que o estudo da musicalidade pela óptica do “popular” passa necessariamente pelo mágico.
Prefiro me esquivar da discussão inacabável sobre o que é ou não “popular” e abordar as questões da música pela perspectiva das manifestações mantidas pelas camadas mais pobres da população.
E não se entenda aí qualquer conotação pejorativa. Aquilo a que se acostumou chamar de folclore ou cultura popular é manifestação que sobrevive por ser um patrimônio de resistência de afro descendentes e índio descendentes que ainda conversam com o sagrado.
É nos rincões deste País de dimensões continentais que sobrevivem os xamãs que falam ao Universo sem precisar de letras, pautas ou definições rebuscadas. Falam porque assim sempre foi desde tempos imemoriais, quando os moradores originais desta terra dançavam, cantavam e homenageavam seus ancestrais, dos posteriores terreiros de batuques, travestidos em festas aculturadas e transformados em festejos católicos de porta de Igreja. Falam porque conhecem como poucos a arte do percutir o ar para abrir corações e espíritos à grande conversa com o transcendente. Falam porque até na sua diversão trazem a humildade de quem sabe da pequenez humana e finita.
E não se espere, com isso, que essas manifestações sejam peças emboloradas de museu. São fatos vivos da cultura, emocionantes, emocionados. ´´É sempre igual”, dizia um dançador de jongo de São Luís do Paraitinga ao Prof. Carlos Brandão, “mas é sempre diferente”.
Essa foi mais uma lição trazida pelo módulo “Música na perspectiva da cultura popular: danças e folguedos I”. E buscamos no mesmo Prof. Brandão uma fala que consideramos importante.
“Aquilo que se reproduz entre pescadores, índios e camponeses como saber, crença ou arte reproduz-se enquanto é vivo, dinâmico e significativo para a vida e a circulação de trocas de bens, de serviços, de ritos e símbolos entre pessoas e grupos sociais. Enquanto resiste a desaparecer e, preservando uma mesma estrutura básica, a todo momento se modifica. O que significa que a todo momento se recria” (7)
A professora Eugênia mostrou que é possível participar, mesmo que à distância, dessa dinâmica da vida, em ligação com o sagrado, respeitando as regras que limitam o acesso dos iniciantes. Basta abrir o coração com serenidade. E ela mostrou isso de maneira surpreendente. Se não estivéssemos todos encantados, o reproduzir do toque do tamborim seria cômico, mas não foi: “teco, teco, teco, teteco, teco, teco”.
Mas não se engane. Percutir com coerência permite fazer sons razoavelmente inteligíveis. Entretanto, só isso não basta. O tocar de verdade independe da pauta matemática dos compassos. É preciso aprender a voar.
A experiência vivida em aula foi muito maior do que apenas reproduzir gestos, passos e sons. Tivemos a oportunidade de abrir a janela da alma para o entendimento da música como ferramenta e não apenas como produto. Um bom começo para compreender as dimensões da sabedoria que fogem aos livros.
Descoisifiquemos o mágico! Sejamos livres! Que Macunaíma perca o muiraquitã, cuja sorte é apenas reflexo da beleza da imensidão. Sejamos belos pela beleza do que se faz, não do que se tem ou expropria. E que os corações disparem seus alarmes na busca da sorte das construções cotidianas.
“Oi Maria vem ver
Oi Maria vem cá
Vem dançar Mazurca (coco)
Pro povo se alegrar”(8)
(*) texto reflexão produzido para a aula de “Música na perspectiva da cultura popular: danças e folguedos I”, do curso de Pós-graduação em Cultura Popular Brasileira da Univap, Ministrado pela Professora Eugênia Nóbrega
[1] Chove Chuva, música de Jorge Bem Jor lançada no disco Jorge Bem Samba Esquema Novo, Universal Music 1963
[2] LOPES, Nei, Enciclopédia da Diáspora Africana, Selo Negro Edições, São Paulo, 2004, pp 639.
[3] “Axé, termo de origem ioruba que, em sua acepção filosófica, significa a força que permite a realização da vida”, LOPES 2004.
[4] BRANDÃO, Carlos Rodrigues, O que é folclore, São Paulo, Editora Brasiliense, 1984.
[5] “Improviso do mal da América” (fevereiro de 1929), Andrade (1993, p. 265). APUD CAVALCANTI, Maria Laura Viveiros de Castro, Cultura Popular e Sensibilidade Romântica: as danças dramáticas de Mário de Andrade, REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 19 Nº. 54, 2004.
[6] Op cit
[7] BRANDÃO, 1984
[8] Coco de Valdir Manoel da Silva
“Chove chuva,
Chove sem parar.
Chove, chove, chove chuva
Chove sem parar”
Jorge Ben(1)
![]() |
| Capa do Disco Samba Esquema Novo |
No tempo em que Jorge Ben fazia muito sucesso e ainda não tinha o Jor acoplado ao nome, fui levado a aprender a tocar timba, o “atabaque da bossa nova”, pelo primo mais velho, o Cláudio, exímio violonista e mandão que só ele. A timba é aquele instrumento de percussão cônico que, nos tempos dos Festivais de Música, era empunhado pelo cantor Magro, do MPB4. Mais tarde, ficava sob as pernas de Joãozinho Parahyba, do Trio Mocotó, no saudoso Jogral.
O convite-intimação do primo tinha um fundo operacional, devo reconhecer. Feito família que coleciona goleadores, meus primos violonistas queriam alguém que ficasse no gol, ou seja, na percussão, posição indesejada pela maioria. Sempre fui péssimo em futebol, então, foi fácil aceitar a penalidade.
“Chove chuva” ainda era cantada nos encontros de samba de apartamento e entusiasmava muitos jovens. Foi inspirado pelos primórdios do sambalanço, portanto, que aprendi a tocar timba durante as férias de verão. Aliás, aprendi sem a timba, porque não tínhamos o instrumento em casa (lembre-se, não havia percussionista na família).
“Na falta de tu, vai tu mesmo”, dizia a vovó. Para “timbar”, eu improvisava uma estranha combinação de assento de cadeira de cozinha como “pele” e uma escova de cabelo como a vassourinha de bateria. O primo, alguns anos mais velho, explicou com o didatismo de uma manual de trator: “você faz assim com essa mão e assado com aquela”. E me deixou a pentear e espalmar o assento da cadeira enquanto todo mundo ia jogar bola nos finais de tarde. Assim virei o goleiro, quero dizer, percussionista da família.
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| Eu, de azul, tocando pandeiro para Eugênia |
Hoje, à distância, percebo que o mais importante daquela experiência foi descobrir a magia da música, maior do que o eventual sucesso ou dos romances de fim de noite. A timba-atabaque permitiu que eu conhecesse, mesmo que de longe, o sentido da enigmática irmandade dos percussionistas, seres diferenciados que se comunicam com o Cosmo pela vibração de partículas de ar.
Vivi a esperança de me transformar em percussionista por uns bons dois ou três anos, mas encerrei a pretendida carreira que, aliás, não era lá muito promissora. Nunca mais voltei a tocar timba, salvo raríssimas vezes, aqui ou ali. Fizeram os descaminhos da vida (ou das escolhas) que eu me afastasse do mundo percussivo com o passar dos anos e encontrasse outras formas de conquistar namoradas e conversar com o Universo. As sensações agradáveis da prática musical ficaram guardadas na memória, naquele recanto gosotoso que conserva imagens, sons e sabores do indizível.
“Velhinho”, hoje posso me dar ao luxo de fazer essa volta enorme para, a partir daí, falar sobre as aulas do módulo “Música na perspectiva da cultura popular: danças e folguedos I”, do curso de Pós-graduação em Cultura Popular Brasileira da Univap. Ministrado pela Professora Eugênia Nóbrega, o curso estabeleceu novas pontes com aqueles tempos de goleiro-timba, em que o som da pele animal esticada sobre madeira ensinou, de alguma maneira, como evocar a sabedoria ancestral da vibração do mundo.
Nei Lopes, em sua emblemática Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana (2) , define o verbete tambor como nome genérico de todo instrumento de percussão membranófono. A música africana, diz ele, na origem e na Diáspora, compreende enorme variedade de tambores.
“...quando usados ritualisticamente, são sacralizados, já que o som que emitem é portador de energia vital, de axé (3) , servindo , por isso, como veículo de contato entre o mundo dos vivos e o das entidades sobrenaturais”.
![]() |
| Turma do pós de Cultura Popular Brasileira |
Um colega do curso, o Flávio Itajubá, fundador do Maracatu Baque do Vale, de Taubaté (SP), e muito bem iniciado nas artes de fazer vibrar as partículas do ar para “falar” ao sobrenatural, lembrou durante a aula: depois de tocar um instrumento de percussão, sua vida nunca mais será a mesma. “A vibração é tão forte que até dispara os alarmes dos carros”, dizia ele. E eu brinquei: “dispara os alarmes do coração”.
Pieguismo à parte, acho que aí está a base das minhas reflexões sobre o curso. Por isso escolhi a expressão como título deste texto de reflexão. Os ensinamentos suaves e firmes da Professora Eugênia dispararam meus alarmes afetivos para a retomada dessa comunicação com o Cosmo que eu já conhecia de esbarrão, mas deixava guardada no sótão da memória.
Para compreender música e os folguedos populares é preciso aceitar essa magia que estabelece contato com as energias que desconhecemos, mas que mexem com todos nós. Porque cultura é, como bem definiu Weber, uma teia de significados, pública, visível, audível, vibrável, que serve de referência, identificação e ponte de entendimento entre as pessoas, desde que dividam o mesmo repertório.
A base do cantar e tocar no universo da cultura popular brasileira está na tradição e na ancestralidade de sobreviventes da diáspora africana e do desterro indígena. O que para muitos de nós é mero baticumbum dos espetáculos coreográficos, para outros é releitura de manifestações religiosas transformadas pela necessidade, pelo passar dos tempos ou mesmo pela hibridação provocada por diálogos entre manifestações culturais distintas. Assim, o místico não está despegado da realidade quando se trata de danças e músicas de inspiração popular.
Na abertura de seu livro “O que é folclore”, Carlos Rodrigues Brandão, citou uma fala de um dançador de congo de Machado, no interior de Minas Gerais, muito apropriada a esta altura das reflexões.
“Isso o povo daqui faz por uma devoção. É uma devoção que a gente tem com o santo, e por isso canta e dança conforme fez agora. Agora, tem gente que aparece que chama isso de folclore” (4) .
Essa talvez tenha sido a maior de todas as razões da ambivalência no trabalho de Mário de Andrade, meio intelectual racionalista, meio bruxo “pesquisador-farejador” (como disse certa vez o Maestro Villa-Lobos). Andrade buscou dividir entre o racional e o incomensurável suas andanças de turista aprendiz por esse Brasil tão rico e fascinante. “Êh coisas de minha terra, passados e formas de agora/Êh ritmos de síncopa e cheiros lentos de sertão/Varando contracorrente o mato impenetrável do meu ser...” (5).
Como bem definiu CAVALCANTI, 2004, “De seus primórdios até nossos dias, os estudos de folclore trazem embutida a notável capacidade de provocar entusiasmo, e mesmo encantamento” (6).
Encantamento trazido para a sala de aula pela pequenina professora Eugênia, que adquire dimensões monumentais quando se coloca entre uma alfaia e o universo, ensinando os rudimentos da percussão compassada que permite a conversa com o invisível.
Devo confessar que, bem diferente de meu primo-mandão daqueles tempos de menino, a professora tirou de mim e de todos nós o máximo de musicalidade possível com delicadeza, paciência e um gestual próprio, coreográfico, bailarino.
E tocamos alfaias, caixas, pandeiros, ganzás, sete flechas e tamborins, com um emaranhado de contatos principiantes com algumas das dimensões do eterno, reafirmando que o estudo da musicalidade pela óptica do “popular” passa necessariamente pelo mágico.
Prefiro me esquivar da discussão inacabável sobre o que é ou não “popular” e abordar as questões da música pela perspectiva das manifestações mantidas pelas camadas mais pobres da população.
E não se entenda aí qualquer conotação pejorativa. Aquilo a que se acostumou chamar de folclore ou cultura popular é manifestação que sobrevive por ser um patrimônio de resistência de afro descendentes e índio descendentes que ainda conversam com o sagrado.
É nos rincões deste País de dimensões continentais que sobrevivem os xamãs que falam ao Universo sem precisar de letras, pautas ou definições rebuscadas. Falam porque assim sempre foi desde tempos imemoriais, quando os moradores originais desta terra dançavam, cantavam e homenageavam seus ancestrais, dos posteriores terreiros de batuques, travestidos em festas aculturadas e transformados em festejos católicos de porta de Igreja. Falam porque conhecem como poucos a arte do percutir o ar para abrir corações e espíritos à grande conversa com o transcendente. Falam porque até na sua diversão trazem a humildade de quem sabe da pequenez humana e finita.
E não se espere, com isso, que essas manifestações sejam peças emboloradas de museu. São fatos vivos da cultura, emocionantes, emocionados. ´´É sempre igual”, dizia um dançador de jongo de São Luís do Paraitinga ao Prof. Carlos Brandão, “mas é sempre diferente”.
Essa foi mais uma lição trazida pelo módulo “Música na perspectiva da cultura popular: danças e folguedos I”. E buscamos no mesmo Prof. Brandão uma fala que consideramos importante.
“Aquilo que se reproduz entre pescadores, índios e camponeses como saber, crença ou arte reproduz-se enquanto é vivo, dinâmico e significativo para a vida e a circulação de trocas de bens, de serviços, de ritos e símbolos entre pessoas e grupos sociais. Enquanto resiste a desaparecer e, preservando uma mesma estrutura básica, a todo momento se modifica. O que significa que a todo momento se recria” (7)
A professora Eugênia mostrou que é possível participar, mesmo que à distância, dessa dinâmica da vida, em ligação com o sagrado, respeitando as regras que limitam o acesso dos iniciantes. Basta abrir o coração com serenidade. E ela mostrou isso de maneira surpreendente. Se não estivéssemos todos encantados, o reproduzir do toque do tamborim seria cômico, mas não foi: “teco, teco, teco, teteco, teco, teco”.
Mas não se engane. Percutir com coerência permite fazer sons razoavelmente inteligíveis. Entretanto, só isso não basta. O tocar de verdade independe da pauta matemática dos compassos. É preciso aprender a voar.
A experiência vivida em aula foi muito maior do que apenas reproduzir gestos, passos e sons. Tivemos a oportunidade de abrir a janela da alma para o entendimento da música como ferramenta e não apenas como produto. Um bom começo para compreender as dimensões da sabedoria que fogem aos livros.
Descoisifiquemos o mágico! Sejamos livres! Que Macunaíma perca o muiraquitã, cuja sorte é apenas reflexo da beleza da imensidão. Sejamos belos pela beleza do que se faz, não do que se tem ou expropria. E que os corações disparem seus alarmes na busca da sorte das construções cotidianas.
“Oi Maria vem ver
Oi Maria vem cá
Vem dançar Mazurca (coco)
Pro povo se alegrar”(8)
(*) texto reflexão produzido para a aula de “Música na perspectiva da cultura popular: danças e folguedos I”, do curso de Pós-graduação em Cultura Popular Brasileira da Univap, Ministrado pela Professora Eugênia Nóbrega
[1] Chove Chuva, música de Jorge Bem Jor lançada no disco Jorge Bem Samba Esquema Novo, Universal Music 1963
[2] LOPES, Nei, Enciclopédia da Diáspora Africana, Selo Negro Edições, São Paulo, 2004, pp 639.
[3] “Axé, termo de origem ioruba que, em sua acepção filosófica, significa a força que permite a realização da vida”, LOPES 2004.
[4] BRANDÃO, Carlos Rodrigues, O que é folclore, São Paulo, Editora Brasiliense, 1984.
[5] “Improviso do mal da América” (fevereiro de 1929), Andrade (1993, p. 265). APUD CAVALCANTI, Maria Laura Viveiros de Castro, Cultura Popular e Sensibilidade Romântica: as danças dramáticas de Mário de Andrade, REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 19 Nº. 54, 2004.
[6] Op cit
[7] BRANDÃO, 1984
[8] Coco de Valdir Manoel da Silva
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15/02/2011
Mamães brasileiras na Irlanda pedem ajuda cultural em português
Olá amigos!
Uma prima minha participa de um grupo de mães brasileiras
que moram em Dublin, na Irlanda, onde criam seus filhos.
Vocês sabem de instituições, escolas ou editoras que
pudessem doar livros, CDs e outros materiais para enviar a
elas?
melhor ainda, porque as ligações internacionais são
caras.
Se tiverem dicas, escrevam para mim.
m_cintrao@yahoo.com.br
Uma prima minha participa de um grupo de mães brasileiras
que moram em Dublin, na Irlanda, onde criam seus filhos.
Para que as crianças não percam o contato com valores
brasileiros, elas comemoram carnaval, falam de saci,
boitatá, Yara, cantam músicas do repertório popular
brasileiro, mas ainda assim é pouco. Precisam de materiais
para consolidar esse vínculo com as referências do
Brasil.
Vocês sabem de instituições, escolas ou editoras que
pudessem doar livros, CDs e outros materiais para enviar a
elas?
contato direto de lá. Se pudermos adiantar a conversa,
melhor ainda, porque as ligações internacionais são
caras.
Se tiverem dicas, escrevam para mim.
m_cintrao@yahoo.com.br
05/12/2010
Dia beliche
Preciso de um dia beliche. Sabe? Aquelas camas montadas uma sobre a outra para aproveitar melhor o espaço. Já falei isso outras vezes, mas nunca foi tão verdadeiro. Preciso de um dia oficial, de 24 horas, na cama de baixo. E outro, extra-oficial, na cama de cima, com 48 horas.
Eu sempre achei a cama de cima melhor, mas como fui sonâmbulo na infância e na adolescência, fiquei proibido de dormir na cama de cima. Uma vez, nas férias, até tentei. Mas caí da cama no meio da noite, para susto dos outros três que dividiam o quarto comigo, em dois beliches.
O dia extra-oficial é o mais divertido, por isso teria que oferecer mais horas. Tempo para ler, para estudar, para escrever, desenhar, pintar, vagabundear (lembrem-se, o ócio é criativo!) e amar. Amar muito, oficialmente, é claro (mas na cama de cima). Quer dizer...
Está aí uma provável incompatibilidade. Peso 130 quilos. A patroa não é leve (falei bonito). Os dois juntos na cama de cima representam um risco potencial para que estiver na cama debaixo. Como na cama inferior estaria o dia oficial, em caso de acidente eu seria acusado de premeditação.
Matar um dia oficial por um extra-oficial de 48 horas não é lá um mau negócio. Mas isso não está em questão no momento. Eu mal tenho tempo no dia oficial para fazer tudo o que preciso. Aliás, estou aqui conjeturado e o relógio segue seu curso circular, implacável. Melhor parar de perder tempo.
É que eu estou em vias de fazer uma besteira em nome da falta de tempo e resolvi dar uma paradinha para ver se consigo acertar alguns ponteiros. Falta disposição, cabeça (e tempo, é evidente) para compatibilizar a vida em família, o trabalho e o estudo.
É comum cortar dentista, médico e estudo na hora do aperto em países subdesenvolvidos (o eufemismo é “em desenvolvimento”). Agi automaticamente: “melhor parar de estudar” (isso é a minha cabeça da cama debaixo pensando).
Mas como desfruto de uma certa mordomia em uma cama de cima virtual, histórica e eventualmente disponível (não pensem que sou louco, essa é uma das vantagens de quem é multimídia) parei de pensar no axioma contas-menos-tempo-mais-afazeres-mais-cansaço e fui ler alguns textos teóricos.
Desculpem, não é arrogância. Estou na fase de caldeira intelectual (politicamente incorreto, porque faço uma fumaça daquelas...). Estudo, pois preciso de muitos neurônios para avançar milímetros em meus recordes olímpicos. Não avancei nenhum milímetro, é bom destacar. Mas continuo tentando.
Bom, a questão é que continuo em dúvida. Paro ou não paro de estudar?
Eu até já havia decidido parar. E, metaforicamente, estava ajoelhado diante de meu testamento, pronto para o seppuku (harakiri), fora de mim, já naquela esfera superior de quem está partindo, quando tocou o meu telefone e era a minha orientadora, danada da vida. “você não pode parar; isso é um absurdo; e patati e patatá...”
Para ela é fácil dizer. Afinal, consegue compatibilizar o trabalho de professora em escola pública, com a coordenação do curso de pós-graduação (quatro turmas), atuar como orientadora de alguns loucos como eu e estudar para doutorado (é doutoranda em fase de produção da tese). Além disso, tem tempo para dançar, ir a shows, correr, chacoalhar, nadar e, coitada, torcer para o Corinthians.
Não tenho dúvida nenhuma que ela já encontrou a fórmula para o beliche das tarefas diárias. Suspeito, até, que tenha um triliche (quem sabe quadri). E também sei que ela não desiste fácil. Por isso, vou ficar por aqui a matutar como fazer para:
a) fugir dela
b) fugir de mim mesmo
c) alinhar as agendas e seguir tocando o barco.
Na próxima crônica informo o que aconteceu.
Eu sempre achei a cama de cima melhor, mas como fui sonâmbulo na infância e na adolescência, fiquei proibido de dormir na cama de cima. Uma vez, nas férias, até tentei. Mas caí da cama no meio da noite, para susto dos outros três que dividiam o quarto comigo, em dois beliches.
O dia extra-oficial é o mais divertido, por isso teria que oferecer mais horas. Tempo para ler, para estudar, para escrever, desenhar, pintar, vagabundear (lembrem-se, o ócio é criativo!) e amar. Amar muito, oficialmente, é claro (mas na cama de cima). Quer dizer...
Está aí uma provável incompatibilidade. Peso 130 quilos. A patroa não é leve (falei bonito). Os dois juntos na cama de cima representam um risco potencial para que estiver na cama debaixo. Como na cama inferior estaria o dia oficial, em caso de acidente eu seria acusado de premeditação.
Matar um dia oficial por um extra-oficial de 48 horas não é lá um mau negócio. Mas isso não está em questão no momento. Eu mal tenho tempo no dia oficial para fazer tudo o que preciso. Aliás, estou aqui conjeturado e o relógio segue seu curso circular, implacável. Melhor parar de perder tempo.
É que eu estou em vias de fazer uma besteira em nome da falta de tempo e resolvi dar uma paradinha para ver se consigo acertar alguns ponteiros. Falta disposição, cabeça (e tempo, é evidente) para compatibilizar a vida em família, o trabalho e o estudo.
É comum cortar dentista, médico e estudo na hora do aperto em países subdesenvolvidos (o eufemismo é “em desenvolvimento”). Agi automaticamente: “melhor parar de estudar” (isso é a minha cabeça da cama debaixo pensando).
Mas como desfruto de uma certa mordomia em uma cama de cima virtual, histórica e eventualmente disponível (não pensem que sou louco, essa é uma das vantagens de quem é multimídia) parei de pensar no axioma contas-menos-tempo-mais-afazeres-mais-cansaço e fui ler alguns textos teóricos.
Desculpem, não é arrogância. Estou na fase de caldeira intelectual (politicamente incorreto, porque faço uma fumaça daquelas...). Estudo, pois preciso de muitos neurônios para avançar milímetros em meus recordes olímpicos. Não avancei nenhum milímetro, é bom destacar. Mas continuo tentando.
Bom, a questão é que continuo em dúvida. Paro ou não paro de estudar?
Eu até já havia decidido parar. E, metaforicamente, estava ajoelhado diante de meu testamento, pronto para o seppuku (harakiri), fora de mim, já naquela esfera superior de quem está partindo, quando tocou o meu telefone e era a minha orientadora, danada da vida. “você não pode parar; isso é um absurdo; e patati e patatá...”
Para ela é fácil dizer. Afinal, consegue compatibilizar o trabalho de professora em escola pública, com a coordenação do curso de pós-graduação (quatro turmas), atuar como orientadora de alguns loucos como eu e estudar para doutorado (é doutoranda em fase de produção da tese). Além disso, tem tempo para dançar, ir a shows, correr, chacoalhar, nadar e, coitada, torcer para o Corinthians.
Não tenho dúvida nenhuma que ela já encontrou a fórmula para o beliche das tarefas diárias. Suspeito, até, que tenha um triliche (quem sabe quadri). E também sei que ela não desiste fácil. Por isso, vou ficar por aqui a matutar como fazer para:
a) fugir dela
b) fugir de mim mesmo
c) alinhar as agendas e seguir tocando o barco.
Na próxima crônica informo o que aconteceu.
10/11/2010
Pós-Graduação em Cultura Popular Brasileira chega à quarta turma, em São José dos Campos (SP)
Único no Brasil a oferecer especialização na área, curso prepara-se para formar seus primeiros pesquisadores e dá início a uma nova geração
A Coordenadora do Curso de Pós-Graduação em Cultura Popular Brasileira, Profa. Zuleika Stefania Sabino Roque comemora. O segundo semestre de 2010 marcou o início de aulas da quarta turma do curso, inaugurado no início de 2009 e que já vai formar os primeiros alunos.
O principal objetivo primeiro do curso, diz a professora, de criar uma nova geração de pesquisadores e estudiosos na área de Cultura Popular, está sendo cumprido. Os pós-graduandos da primeira turma apresentam suas monografias apenas no início de 2011, mas já chamam a atenção.Vários trabalhos realizados por eles em aula ou em função das aulas estão ganhando destaque, pela combinação da excelência pessoal com as contribuições do curso.
“Em setembro, por exemplo, a aluna Magali de Castro, que é educadora, foi premiada no Simpósio de História do Instituto de Estudos Valeparaibanos por suas pesquisas sobre a relação dos moradores de São Luiz do Paraitinga (SP) com o movimento de revalorização do Saci”, cita Zuleika Stefania. “Essas pesquisas formam o eixo principal da monografia que a aluna vai apresentar na conclusão do nosso curso de Pós”.
Outro aluno, lembra Stefania, é o músico e professor de educação física Carlos Rogério, o Cagério, que está desenvolvendo uma série shows e oficinas de música infantil no SESC de São José dos Campos. “A pesquisa dele para encerramento do Pós busca entender como funciona o processo de aprendizagem e transmissão de músicas tradicionais entre famílias do Interior”, ressalta a professora.
A professora destaca que os alunos da primeira turma encerrarão seu ciclo inicial de estudos em Cultura Popular Brasileira no primeiro trimestre de 2011, com a apresentação das monografias. Mas a expectativa dos organizadores da especialização é que, mesmo depois de encerrado o curso, eles continuem ligados à área para prosseguir em suas pesquisas.
“Queremos que o Pós se transforme em ponto de encontro de gente interessada em estudar e pesquisar Cultura Popular Brasileira e, com isso, contribuir para a criação de uma nova geração de pesquisadores na área”, destaca Stefania. “Afinal, o curso nasceu como sequência natural de conquistas da região, como as reuniões da comissão setorial do Folclore, da Fundação Cultural Cassiano Ricardo, do Centro de Estudos da Cultura Popular, o Museu do Folclore e os Cadernos do Folclore”.
Professores de destaque
A professora Zuleika Stefania lembra que o Pós-graduação em Cultura Popular Brasileira permite não só a reunião de gente interessada na temática, como criar condições para trazer a São José dos Campos professores e pesquisadores que são referências nacionais no assunto.
“Já tivemos aulas com verdadeiros ícones dapesquisa na área, como o etnomusicólogo Alberto Ikeda, o antropólogo rural Carlos Rodrigues Brandão, a artista plástica Ana Duarte, a música e pesquisadora Eugênia Nóbrega, entre tantos outros”, destaca a coordenadora do curso. “E na medida em que esses pesquisadores conhecem o curso e os nosso alunos, viram nossos parceiros na divulgação do potencial do curso que é diferenciado”.
A coordenadora do curso faz questão de destacar que as turmas são ecléticas e isso favorece o ambiente para debates enriquecedores. “Temos educadores, historiadores, músicos, jornalistas, profissionais da área de saúde, de artes plásticas, história, comunicação e até escritores”, afirma. “Um exemplo é a escritora Christina Hernandez, recém empossada na Academia Joseense de Letras”.
Outras pesquisas realizadas pelos alunos servem de exemplo da vitalidade do curso, lembra a coordenadora, como a pesquisa de campo da aluna Miriam Cristina, orientanda de Carlos Brandão. “Além deles, há estudos sobre manifestações da cultura tradicional, discussões sobre salvaguardas do patrimônio imaterial e pesquisas abordando a questão da cultura no comércio, na indústria e na infra-estrutura da região”.
A Coordenadora do Curso de Pós-Graduação em Cultura Popular Brasileira, Profa. Zuleika Stefania Sabino Roque comemora. O segundo semestre de 2010 marcou o início de aulas da quarta turma do curso, inaugurado no início de 2009 e que já vai formar os primeiros alunos.
O principal objetivo primeiro do curso, diz a professora, de criar uma nova geração de pesquisadores e estudiosos na área de Cultura Popular, está sendo cumprido. Os pós-graduandos da primeira turma apresentam suas monografias apenas no início de 2011, mas já chamam a atenção.Vários trabalhos realizados por eles em aula ou em função das aulas estão ganhando destaque, pela combinação da excelência pessoal com as contribuições do curso.
“Em setembro, por exemplo, a aluna Magali de Castro, que é educadora, foi premiada no Simpósio de História do Instituto de Estudos Valeparaibanos por suas pesquisas sobre a relação dos moradores de São Luiz do Paraitinga (SP) com o movimento de revalorização do Saci”, cita Zuleika Stefania. “Essas pesquisas formam o eixo principal da monografia que a aluna vai apresentar na conclusão do nosso curso de Pós”.
Outro aluno, lembra Stefania, é o músico e professor de educação física Carlos Rogério, o Cagério, que está desenvolvendo uma série shows e oficinas de música infantil no SESC de São José dos Campos. “A pesquisa dele para encerramento do Pós busca entender como funciona o processo de aprendizagem e transmissão de músicas tradicionais entre famílias do Interior”, ressalta a professora.
A professora destaca que os alunos da primeira turma encerrarão seu ciclo inicial de estudos em Cultura Popular Brasileira no primeiro trimestre de 2011, com a apresentação das monografias. Mas a expectativa dos organizadores da especialização é que, mesmo depois de encerrado o curso, eles continuem ligados à área para prosseguir em suas pesquisas.
“Queremos que o Pós se transforme em ponto de encontro de gente interessada em estudar e pesquisar Cultura Popular Brasileira e, com isso, contribuir para a criação de uma nova geração de pesquisadores na área”, destaca Stefania. “Afinal, o curso nasceu como sequência natural de conquistas da região, como as reuniões da comissão setorial do Folclore, da Fundação Cultural Cassiano Ricardo, do Centro de Estudos da Cultura Popular, o Museu do Folclore e os Cadernos do Folclore”.
Professores de destaque
A professora Zuleika Stefania lembra que o Pós-graduação em Cultura Popular Brasileira permite não só a reunião de gente interessada na temática, como criar condições para trazer a São José dos Campos professores e pesquisadores que são referências nacionais no assunto.
“Já tivemos aulas com verdadeiros ícones dapesquisa na área, como o etnomusicólogo Alberto Ikeda, o antropólogo rural Carlos Rodrigues Brandão, a artista plástica Ana Duarte, a música e pesquisadora Eugênia Nóbrega, entre tantos outros”, destaca a coordenadora do curso. “E na medida em que esses pesquisadores conhecem o curso e os nosso alunos, viram nossos parceiros na divulgação do potencial do curso que é diferenciado”.
A coordenadora do curso faz questão de destacar que as turmas são ecléticas e isso favorece o ambiente para debates enriquecedores. “Temos educadores, historiadores, músicos, jornalistas, profissionais da área de saúde, de artes plásticas, história, comunicação e até escritores”, afirma. “Um exemplo é a escritora Christina Hernandez, recém empossada na Academia Joseense de Letras”.
Outras pesquisas realizadas pelos alunos servem de exemplo da vitalidade do curso, lembra a coordenadora, como a pesquisa de campo da aluna Miriam Cristina, orientanda de Carlos Brandão. “Além deles, há estudos sobre manifestações da cultura tradicional, discussões sobre salvaguardas do patrimônio imaterial e pesquisas abordando a questão da cultura no comércio, na indústria e na infra-estrutura da região”.
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